Autor: Pedro Quintão
Há algo de curioso neste Frankenstein de Guillermo del Toro: é tecnicamente brutal, visualmente fascinante e interpretado por um elenco de luxo, mas falta-lhe a alma que carateriza os filmes do Guillermo del Toro durante boa parte do percurso. Dizer que é um mau filme seria injusto, até porque está claramente acima da média do que a Netflix costuma lançar, mas é talvez um dos trabalhos mais desequilibrados do realizador.
A estrutura dividida em duas perspetivas: a de Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e a da criatura (Jacob Elordi) acaba por funcionar como um espelho da própria experiência de ver o filme: uma primeira parte fria e distante, e uma segunda muito mais emocional e rica. A narrativa centrada em Victor Frankenstein nunca chega a envolver. Falta-lhe algo, pareceu-me em alguns momentos, apressada e até superficial na forma como o realizador conduz as relações, sobretudo entre a criatura e a personagem de Mia Goth, que nunca parecem partilhar uma química real, para além da conexão da personagem de Mia ao "monstro" não ser convincente. A escrita, em certos momentos, dá a sensação de bloqueio, como se del Toro, desta vez, não conseguisse entrar na pele das suas próprias criações.
Mas tudo muda quando a história passa para o ponto de vista do “monstro”. Aqui, sim, surge o del Toro que conhecemos: temos uma visão mais ternurenta e melancólica, que capta a beleza no surreal. Jacob Elordi surpreende através da vulnerabilidade do seu personagem, e a sua ligação ao velho cego é das cenas mais belas e tocantes do filme. É nestes momentos que sentimos o coração da obra, tarde demais, mas ainda com força suficiente para nos marcar.
Visualmente, o filme é brutal, como já é habitual nos trabalhos de del Toro. A direção de fotografia é deslumbrante, a arte e os efeitos práticos tudo está excelente. Mesmo assim, a sensação final é ambígua: há cenas que parecem arrastadas e outras que terminam demasiado depressa, como se o realizador não tivesse decidido quanto tempo queria realmente passar com estas personagens.
Frankenstein é um bom filme dentro da sua irregularidade. Fascina pelo talento envolvido e pela beleza que consegue atingir nos seus melhores momentos, mas para mim, demonstrou que o verdadeiro “monstro” aqui possa ser a ausência de alma numa história que pedia precisamente isso... Mas será que isso não será culpa das possíveis imposições da Netflix?
Em 12 Nov 2025
Autor: victor damião
Frankenstein da Netflix, é uma obra incrível dou-lhe 9/10, pois é um filme muito bom. Ele toma a criatura não como mero espantalho, mas como espelho do que é viver, nascer sem manual, buscar um nome, um lugar à mesa e algum calor humano em um mundo que teme o diferente. O que mais me pegou foi como a história faz do horror uma espécie de confissão humana, mostrando que o "monstro" muitas vezes é só alguém lançado ao mundo e deixado à própria sorte, enquanto o verdadeiro pecado mora na vaidade de brincar de deus e depois virar o rosto. A mensagem do filme, para mim, foi que criar vida (ou qualquer coisa) exige responsabilidade, e a humanidade de alguém não se mede pela forma do corpo, mas pela capacidade de reconhecer o outro, porque viver é, em essência, lutar contra o abandono e insistir em sentido, mesmo quando o mundo responde com frio. E viva, independente do que o mundo te ofereça.
Nunca cheguei a ler o livro, mas com certeza irei ler esse ano.
Eu recomendo o filme.
Em 13 Feb 2026