Autor: Filipe Manuel Neto
**Um esforço meritório.**
Qualquer cineasta que decida usar material de Homero, Ovídio ou outro clássico merece imediatamente parabéns pela coragem. Mesmo que o seu esforço não seja positivo, tentou. Digo isso porque li Homero e vi o quanto o autor pode ser duro de adaptar. Os Irmãos Cohen foram um passo além: levaram Homero para o cinema de uma maneira que nem parece Homero: colocaram a história grega de Ulisses num novo contexto, dando-lhe uma forma diferente. Tudo feito com o toque habitual de elegância sarcástica que é a assinatura destes directores.
A idéia principal da trama é simples mas leva tempo para se mostrar: Everett Ulysses McGill é um condenado que decide fugir do seu campo de trabalhos e tentar impedir que a sua noiva se case com outro. Ele leva dois outros prisioneiros que foram, felizmente, acorrentados a ele. Alguns momentos do filme são muito engraçados e a ironia está sempre lá. Às vezes perguntamo-nos onde está a lógica, mas o filme logo explica a maioria dos momentos ilógicos (excepto, talvez, o monte de latas de pomada que aparece ao longo do filme e que eu, sinceramente, não entendi bem).
Ao contrário de alguns críticos, não acho que ler a "Odisseia" seja importante para entender o filme, embora nos ajude a perceber algumas cenas. O trabalho dos actores é bom, mas nenhum se sobrepõe a George Clooney, quase irreconhecível e com um intenso sotaque sulista. Bem, talvez Tim Blake Nelson seja tão bom quanto ele, graças à maneira ingénua como interpretou Delmar.
Por fim, uma palavra de apreço aos figurinos e cenários, absolutamente fiéis ao período em que tudo acontece, tal como à banda sonora, envolvente e animada, que dá vida à história.
Em 24 Aug 2018