Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme animado, carregado de rebeldia e energia.**
Lembram-se das lojas que vendiam discos e CD’s de música? Ainda há algumas, e o renascer do vinil, muito recente, tem permitido um certo renascimento do sector comercial, um pouco em resposta à massificação e vulgarização da música em “streaming” e dos ‘downloads’ digitais que já temos como algo comum nas nossas vidas. Este filme é sobre uma loja aberta 24 horas, com espaços para vender e ouvir música. É gerida por jovens, com empregados jovens, um dono idiota e um gerente que sonha com a possibilidade de comprar o espaço. Acontece que um dos empregados resolveu ir a um casino e perdeu todo o dinheiro guardado para esse projecto.
A acção decorre no dia a seguir ao incidente. Além do destino da loja e dos seus empregados, que está em jogo, cada um vive a sua história, tem características e personalidade. Aliás, toda a construção e desenvolvimento da história e das personagens é um dos aspectos mais positivos do filme. Temos uma jovem adolescente que deseja perder a virgindade de modo especial, mas tem sérios problemas com anfetaminas, um aspirante ao curso de Artes, um vigarista com uma infância complicada, uma moça liberal que parece gostar particularmente de aventuras sexuais, um roqueiro louco. Além dos empregados, temos ainda uma ex-estrela musical que resolve ir até ali para promover um novo CD e causar alguns problemas engraçados.
O filme conta com um elenco impressionante e vale a pena ver quem são os actores e onde se encontram hoje. Percebemos bem que cada um quis aproveitar esta oportunidade da melhor forma. Ao contrário do que sugerem os pósteres, Liv Tyler, que é filha de um músico rock, tem uma personagem sem protagonismo, mas faz um excelente trabalho, até contracenando com o (então) seu padrasto, Coyote Shivers. Rory Cochrane, Renée Zellweger e Ethan Embry também estão aqui, e cada um deles faz um trabalho muito competente. Apesar da centralidade da sua personagem, Anthony La Paglia não rouba os holofotes para si e divide a nossa atenção com os colegas de elenco de modo generoso e fazendo um trabalho muito bem feito. Temos ainda Robin Tunney, careca e rebelde, Debi Mazar e Johnny Whitworth. Os papeis menos simpáticos cabem a Max Caulfield e Ben Bode, e eles são agradavelmente cómicos.
A nível técnico, o que sobressai pela positiva é a enorme animação do filme. Não há momentos mortos. A história é construída de maneira a dar-nos uma espécie de moral sobre a brevidade da vida e a necessidade de aproveitarmos o tempo, vivermos a vida, ainda que correndo riscos e cometendo erros. A isso, soma-se uma banda sonora estridente, cheia de força, onde o rock predomina e emana energia, positividade e rebeldia. As canções usadas aqui são sobejamente conhecidas e os fãs do género rock vão adorar. Aliás, os discos lançados com a banda sonora foram um sucesso, em contraponto absoluto com o filme em si, que fracassou nas salas de cinema, foi esbombardado pela crítica e só adquiriu certa popularidade e reconhecimento público em anos muito mais recentes. Talvez estivesse, simplesmente, à frente do seu tempo.
Em 22 May 2023