Autor: Filipe Manuel Neto
**Um bom melodrama que dispensava os temas políticos.**
Este filme é o resultado de uma parceria entre os EUA e a China. O roteiro é um romance no qual uma jovem fútil se casa sem amor e trai o marido, que a ama. A partir daí, vivem num casamento que só existe formalmente e as coisas pioram quando vão para uma aldeia na China, onde surgiu uma epidemia de cólera. A situação política do país também causará problemas pois a China, recentemente transformada em república, torna-se um país conturbado, com conflitos internos e enorme aversão a estrangeiros.
O enredo adapta ao cinema um romance seco e sem coração, mas fá-lo de uma forma às vezes melodramática. Entendo a intenção: para adoçar o efeito dramático, o argumentista alterou a história. Isso é bom mas, assim como ao fazer um bolo, temos que ter cuidado para não exagerar na dose de açúcar. Infelizmente, às vezes abusaram do açúcar mas, ao mesmo tempo, a epidemia e a miséria da China campestre tornam o filme mais realista, cortam a doçura a mais e tudo se torna mais equilibrado, harmonioso e agradável.
A parte política da trama, no entanto, está totalmente fora de contexto e nunca se encaixa na história. Eu digo isso porque não fez nenhuma diferença na história em si. É dispensável. Que aconteceu ali? O argumentista decidiu não desenvolver o sub-enredo ou foi o Partido Comunista Chinês de quis fazer do filme uma espécie de revisão político-histórica? Se a segundo foi verdade era algo que não interessava. A China, no entanto que tanto tenta parecer ocidentalizada, só o será verdadeiramente com eleições livres e multipartidárias, uma imprensa livre e liberdade de opinião. Nenhuma dessas coisas existe por trás da imagem, poluída e ultra-moderna, que a China gosta de mostrar ao mundo, e não há cortina de fumo que esconda para sempre a ditadura chinesa.
Edward Norton e Naomi Watts são dois actores conhecidos e talentosos. Os dois já viram os seus nomes na lista de indicados ao Óscar. Eles trabalharam bem mas a personagem dele é mais capaz de cativar o carinho do público, enquanto ela tem uma longa expiação pela frente. De qualquer forma, Watts foi capaz de mostrar a evolução moral e psicológica da personagem e isso foi difícil, até para uma boa actriz.
O elenco restante, infelizmente, é insignificante. Toby Jones é bom o suficiente mas tem pouco para fazer, assim como Diana Rigg e Liev Schreiber. Melhor que eles são os cenários e a cinematografia. A China mostrou neste filme algumas paisagens magníficas que o filme foi capaz de explorar. A banda sonora tem algumas excelentes peças de piano de tom triste, que se harmonizam com as névoas, doenças e casos de amor que são o núcleo da história.
Em 25 Aug 2018