Autor: Filipe Manuel Neto
**Apesar de previsível e carregado de clichés, é um filme que marcou uma geração, alertou muitas consciências para assuntos muitos sérios, e continua a ser muito bonito trinta anos depois.**
Este é seguramente um dos filmes que marcou as pessoas durante os anos 90, e que manteve a sua popularidade e simpatia durante muitos anos. Hoje eu penso que está esquecido, e em parte tenho pena disso. Todavia, creio que o filme já fez o seu trabalho: não só entreteve quem o viu e o continua a ver, como teve um certo papel social pela forma como despertou nos mais jovens (mas não só neles) uma certa consciência para a ecologia, para a preservação dos animais e das espécies em perigo. Também acredito que o filme teve uma certa responsabilidade na mudança do pensamento dos zoológicos e lugares que conservam animais em cativeiro: ao invés de serem “depósitos de animais” para entretenimento público, passaram a ser instituições com cada vez maior relevância na preservação dos animais: hoje, são essenciais na sobrevivência de espécies cujos habitats naturais foram destruídos e que só se vão perpetuando em cativeiro. Também assumem a dianteira na reprodução assistida de muitos animais, como o Urso Panda Gigante, por exemplo, bem como no resgate, tratamento veterinário e preparação de animais que, tendo sido caçados ilegalmente ou vivido muitos anos em companhia humana, necessitem de voltar à vida selvagem.
Assim, este filme acaba por ser mais relevante pelo efeito que provocou nas pessoas do que por si só. Analisando-o de modo simples, é um filme bastante açucarado, carregado de clichés e sem grande qualidade artística. Um filme de entretenimento familiar, excelente para ver em família e que, durante anos, foi quase institucional nas televisões, durante o período de Natal. O roteiro é bastante simples, e leva um adolescente rebelde e revoltado a regenerar-se quando começa a ter contacto com uma orca que vive há anos em cativeiro. A amizade entre ambos é tocante e sincera, assim como os esforços do rapaz, e dos amigos que vai fazendo, para a libertar para os mares, numa corrida contra o tempo e contra a acção dos vilões, os donos do parque onde ela é mantida, e que não se importam minimamente com ela. É um filme previsível ao extremo, e que romantiza excessivamente a libertação de animais mantidos em cativeiro, fazendo com que o público esqueça que é necessária toda uma preparação prévia, de vários anos, e que nunca se sabe se o animal, após anos dependendo de humanos, se vai realmente adaptar. Keiko, a orca que o filme usou (e que viveu em cativeiro por anos depois do filme), acabaria por ser preparada e libertada, mas, como sabemos, nunca se adaptou à vida selvagem.
O filme conta com um bom elenco, mas uma sofrível concepção de personagens. Nenhuma das personagens é realmente boa e todas são clichés: o adolescente heróico, o nativo-americano cheio de sabedoria ancestral que conhece os animais como ninguém, os capitalistas arrogantes sem respeito por nada nem ninguém… Excluindo a orca Keiko, é Jason James Ritcher que se vai destacar como actor, no papel do adolescente que salva o dia. Ele faz o que é preciso, e eu penso que ele foi relativamente credível no seu esforço. Michael Madsen também merece um louvor pelo seu trabalho, num filme que, de resto, irá ser dos mais populares da sua carreira artística. Lori Petty e Jayne Atkinson são bastante boas, August Schellenberg faz o que pode com o cliché que lhe foi dado. O resto simplesmente não interessa.
Tecnicamente, o filme destaca-se pela boa cinematografia. Muitos filmes dos anos 90 parecem velhíssimos quando os vemos agora, mas este é uma daquelas excepções louváveis que merece ser citada. Os locais de filmagem, bem como os cenários, também merecem uma nota positiva pela beleza visual. Os efeitos sonoros são muito bons, e os efeitos visuais e especiais merecem um louvor, em particular a baleia animatrónica, que é bastante realista. Por fim, uma nota para louvar a qualidade do tema principal da banda sonora criada para este filme, e que é dos mais bonitos do seu tempo.
Em 25 Dec 2022