Autor: Filipe Manuel Neto
**Um passeio pelo melhor da América Latina, num filme surpreendentemente pouco politizado.**
Decidi ver este filme com algum receio de encontrar apenas uma peça de propaganda socialista ou comunista. Para a minha felicidade, o registo e a tónica são muito mais intimistas, biográficos e humanos do que, propriamente, políticos. De facto, se não conhecêssemos tão bem a figura de Ernesto “Che” Guevara, e o que ele virá a ser e representar, o filme não nos ajudaria muito a compreender ou saber mais.
O filme resulta da adaptação cinematográfica de dois livros por Ernesto Guevara (*Notas de Viagem*) e por Alberto Granado (*Com Che pela América do Sul*), que são os protagonistas do filme. É um filme contado na primeira pessoa, e que nos relata a grande viagem de motorizada que os dois amigos e colegas de medicina resolveram fazer ao longo dos vários países da América do Sul que falam a língua espanhola, e na qual Guevara vai sentir-se cada vez mais interessado em ajudar e defender os mais pobres e fracos da sociedade.
O roteiro é muito melhor do que eu esperava e concentra-se na viagem feita e na forma como a mesma viagem afecta e muda as personalidades dos dois companheiros, particularmente a de Guevara. A relação de amizade entre ambos os protagonistas é sólida o suficiente para nunca ser posta em causa por nenhum obstáculo ou percalço, e as tribulações que ambos vão passando podem ser realmente cómicas e dar ao filme um tom mais leve do que o esperado. O filme não tem uma carga política, e o esforço para o despolitizar pode ter ido além do necessário: de facto, o contacto que Guevara vai tendo com os pobres e os mais fracos da sociedade é reduzido a um conjunto de depoimentos inócuos que, confesso, me parecem superficiais.
Dirigido com habilidade pelo brasileiro Walter Salles, o filme conta com as excelentes actuações de Gael Bernal e Rodrigo de la Serna, dois actores hispânicos que eu naturalmente desconhecia, mas que gostei de ver trabalhar. Ambos são excelentes quando contracenam juntos e colaboram de maneira muito profícua, com o primeiro a tentar evitar perder a jovialidade da personagem em detrimento de uma consciência social e política prematura, e o segundo a recusar-se a ser só o amigo brincalhão de uma personagem mais importante.
Tecnicamente, é um filme primoroso e cheio de detalhes, começando imediatamente por uma cinematografia atenta e cuidadosa, que sabe como tornar cada cena visualmente envolvente e bonita sem tirar o foco do essencial. A escolha criteriosa dos locais de filmagem contribui com uma beleza adicional, num verdadeiro passeio pelo locais mais cénicos da América Latina. Todo o cenário, os figurinos e adereços são bons e adequam-se muito bem à cronologia em que todos os acontecimentos se passam. Não observei grandes problemas de anacronia nem falta de rigor histórico. A música é bastante boa, mas não sobressai particularmente. Finalmente, uma breve nota de louvor pelo uso do Castelhano como língua, em detrimento da comercialmente melhor opção pela língua inglesa, que eventualmente venderia o filme mais facilmente, mas traria com ela uma sensação de artificialidade desagradável.
Em 12 Sep 2021