Autor: Filipe Manuel Neto
**Esperava muito mais deste filme.**
Este filme de animação digital recria uma das histórias mais famosas de Tintim, "O Segredo do Licorne". Dirigido por Steven Spielberg, produzido por Peter Jackson (que foi responsável por "O Senhor dos Anéis"), com uma banda sonora de John Williams, o filme apresenta as vozes de Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig e outros actores.
Nunca fui um ávido leitor de Tintim mas a banda desenhada foi uma boa companhia para mim durante a infância e a adolescência (às vezes ainda é). Mas eu nunca tive boa impressão de filmes com base em livros ou personagens de banda-desenhada. Os filmes ficam quase estilizados e irrealistas. Porém, neste caso isso não aconteceu porque o filme foi mantido como animação, o que autoriza a semelhança visual com os desenhos dos livros. Mas apesar desta boa notícia, as minhas expectativas ficaram longe de ser satisfeitas pelo filme.
O roteiro, apesar de ser bom e consistente, não soube de todo aproveitar o material do livro onde foi baseado. Na verdade, quase que o rejeita, misturando elementos de outras revistas e inventando outras coisas que não se encaixam na imagem do Tintin dos livros. Portanto, os personagens parecem bastante forçados e as suas reacções não parecem fiéis ao que se podia esperar nas revistas.
O trabalho de voz parecem muito bons, eu pelo menos não reparei em atrasos ou erros. A maioria dos actores de voz usados aqui são já experientes, com uma excelente capacidade de modulação de voz, sabendo como colocar a voz para alcançar o efeito desejado. O trabalho de animação e efeitos visuais é excelente, muito colorido e impressionante. É a maravilha da animação digital. A banda sonora também é boa mas esperava algo mais...
No geral, o filme é interessante e divertido, mas torna-se chato em certos momentos e quase não cria verdadeiro senso de mistério, suspense ou aventura.
Em 24 Feb 2018
Autor: Filipe Manuel Neto
**UM FILME VISUALMENTE ELEGANTE E TECNICAMENTE INOVADOR ONDE O PROBLEMA É A VACUIDADE DA PERSONAGEM PRINCIPAL.**
_CRÍTICA QUE FIZ APÓS REVER O FILME._
Este filme nasceu do apreço mútuo entre Steven Spielberg e Hergé: eles não chegaram a conhecer-se (Hergé morreu na semana em que o iam fazer), mas Spielberg admirava a forma como o cartoonista captava a imagem, considerando-o um «cineasta do papel». Após a sua morte, comprou os direitos da sua obra à viúva, que sabia que Hergé havia dito que só Spielberg conseguiria fazer uma adaptação honrosa de “Tintim”. Porém, Spielberg ficou uma década sem saber o que fazer: desejando manter o visual dos álbuns sem abdicar do movimento do corpo humano, não sabia se devia fazer um filme convencional ou uma animação. Em 2007, a solução chegou nas palavras de Peter Jackson, que sugeriu uma animação digital feita com recurso à tecnologia de captura de movimento. Spielberg não morria de amores pelas novas tecnologias, mas ficou convencido ao compreender as potencialidades desta novidade, e pediu a Jackson para assumir como produtor executivo.
Em Outubro desse ano, a dupla contratou Steven Moffat para escrever um argumento, mas ele só lhes fez uma primeira versão (devido, entre outros problemas, à greve dos argumentistas). Pediram então a Edgar Wright e a Joe Cornish para terminar o trabalho. Eles conheciam bem o material-fonte e procuraram desenvolver cenas de acção dinâmicas, do agrado de Spielberg, e diálogos inteligentemente bem-humorados que soassem como as falas das personagens dos álbuns. Inseriram, assim, comédia situacional, algum humor slapstick, sarcasmo e outras características. Concentraram-se nos álbuns “O Segredo do Licorne” e “O Tesouro de Red Rackham”, mas inseriram alguns elementos de outros álbuns a fim de contextualizar a amizade de Tintim e Haddock, pois o público norte-americano conhece muito mal as personagens. Foi este argumento que Spielberg e Jackson apresentaram aos estúdios, com um cronograma aproximado e um orçamento de 135 milhões, fora o marketing e o valor de 30% de lucros das bilheteiras que Spielberg e Jackson iam receber em substituição do salário. Os altos custos e tempo de produção desencorajaram as empresas com excepção da Sony, que aceitou o desafio através da subsidiária Columbia. Para minorar riscos, eles fizeram um acordo com a Paramount/Nickelodeon, dividindo custos e rendimentos. Também tentaram impor um “Tintim à americana”, mais fácil de vender no mercado doméstico, mas isso foi logo recusado pelo director e pela equipa de argumento.
As filmagens decorreram em Hollywood no primeiro trimestre de 2009. Para Spielberg, foi um mergulho num mundo de possibilidades novas, que ele descreveu como ser uma criança e ter uma câmara. Não havia cenários, havia telas cinzas no piso e os actores vestiam fatos de licra com pontos reflectores captados por câmaras de infravermelhos. O resultado era um «mapa» dos movimentos corporais e faciais de cada actor que serviria de base à construção das personagens. Nas filmagens, Spielberg acompanhava tudo num monitor portátil, o qual lhe permitia não só ver como seria a animação, mas também manobrar as câmaras e escolher enquadramentos simplesmente movimentando-se a ele mesmo ao redor do estúdio. Qualquer alteração podia ser revista depois, na pós-produção, visto que tudo estava a ser gravado! Para tornar as coisas mais fácéis, os actores manuseavam objectos que simulavam o objecto a ser manipulado no filme: até mesmo Milú teve direito a um “duplo” feito de arame, que permitiu ao elenco imaginar o cão antes de a equipa gravar um cão autêntico para obter os seus movimentos e som (a personagem mostrou-se a mais difícil de recriar). Após um mês e meio de filmagens, o trabalho passou para os laboratórios da Weta Digital, de Peter Jackson, na Nova Zelândia, para a renderização e criação gráfica. Esta fase demorou dezoito meses e exigiu o uso de software inovador, como o subsurface scattering (para que a pele pareça realista à luz). Quando os visuais e o CGI ficaram prontos, bastou adicionar as vozes, o som diegético e, claro, a banda sonora de John Williams. Falarei dele mais adiante!
Como a maioria dos actores nunca tinha feito filmagens em motion-capture, Andy Serkis precisou de os ajudar. Ele foi chamado para dar vida ao Capitão Haddock e é, de longe, o actor que mais se destaca, seja pelo mérito próprio (simulando bem o caminhar cambaleante de um alcoólico e dar-lhe uma voz grossa e rude, adequada a um marinheiro calejado), seja pela qualidade da própria personagem, profundamente mais complexa do que poderia parecer. Também gostei muito de Simon Pegg e Nick Frost, que deram vida a Dupond e Dupont: eles já eram amigos há alguns anos, transpondo a química pessoal para a interpretação das duas personagens, iguais como gotas de água. Daniel Craig é, para mim, uma escolha improvável, mas a verdade é que funcionou: ele consegue dar ao vilão uma postura elegante, ameaçadora e inteligente. Jamie Bell esforçou-se ao máximo, até aprendeu a correr fingindo estar a ser puxado pelo cão, e a sua voz está no tom certo, mas não é fácil ser-se Tintim, e ele é o actor mais prejudicado pelo material que recebeu.
O filme foi um grande sucesso na Europa e Ásia, mercados já familiarizados com as personagens; nos EUA, enfrentou maior resistência mas também deu lucro e a crítica especializada também se rendeu ao trabalho de Jackson e Spielberg. E também não serei eu a deixar de aplaudi-los. O filme demorou quase uma década para fazer, mas é uma proeza técnica. A nível tecnológico, o filme que rompe barreiras e abre possibilidades novas. E é bastante claro que Spielberg adorou a possibilidade de aplicar toda a sua mestria num filme tão diferente daquilo que está acostumado. Para ele, foi um desafio e também um prazer! Eu valorizo isso. Eu consigo ver o olhar do director nas elaboradas cenas de perseguição, com ideias quási copiadas de Indiana Jones. Também consigo ver muito de Hergé neste filme: os estilos de humor, a maneira como os diálogos foram escritos, até a dinâmica da trama em si! O filme honra o material-fonte sem se colar a ele.
No entanto, há problemas sérios que impedem o filme de se tornar verdadeiramente memorável. O maior de todos, para mim, é o facto de a personagem principal ser absolutamente unidimensional e esquecível. Hergé concebeu o herói mais raso da banda-desenhada! Tintim é o tipo de miúdo chato que faz tudo bem, é bom em tudo e quer o bem de todos o tempo todo! Só falta a faixa a tiracolo e um discurso pela paz mundial! Eu teria gostado de ver uma trama que concedesse mais complexidade ao herói e o tirasse da sua zona de conforto, por exemplo, obrigando-o a tomar decisões difíceis perante um antagonista à sua altura. Infelizmente, Spielberg não compreendeu isso, ficou apenas pelos visuais e não soube ver que a personagem principal precisava de mais conteúdo. O filme pode ser visualmente bonito (eu consegui aceitar o visual estranho como ele foi feito, não foi um grande problema para mim) e tecnicamente inovador, mas esta falha mata-o. Um outro problema, para mim, foi a banda sonora de John Williams. Ele é um dos melhores a fazer música para cinema, mas devia estar tão pouco inspirado que nos entregou uma versão “mastigada” da música que já havia feito para o filme “Catch me if You Can”. As semelhanças tonais, rítmicas e de temas são inegáveis.
Em 28 Feb 2026