Autor: Filipe Manuel Neto
**Finalmente, um filme de Akira Kurosawa que realmente me agradou.**
Já vi alguns filmes do director Kurosawa e, apesar de concordar que é um bom cineasta, nunca me senti verdadeiramente encantado. “Ran” é um bom filme, mas é basicamente a história do Rei Lear levada para o Japão e contada de maneira estilizada e dolorosamente lenta; “Yojimbo” é um bom filme de acção com muita violência, mas é só isso, não me leva a querer acompanhar mais aquele cineasta ou aquele actor; “Seven Samurai” também é bom e muito bem feito, mas também é muito lento, inchado e previsível; “Rashomon” tem uma história de mistério muito bem pensada, mas é excessivamente complicado.
Pois bem… com este filme, Kurosawa finalmente conquistou a minha admiração. Nunca um filme deste director me tinha cativado e tocado desta maneira. O director, que também garante a escrita do argumento, oferece-nos uma história verdadeiramente comovente em torno de um idoso funcionário público que descobre que tem cancro e que vai morrer daí a poucos meses. Longe de ser um filme depressivo sobre a inexorabilidade da morte ou a efemeridade humana, o filme filosofa demoradamente – sim, Kurosawa adora fazer dos seus filmes uma maratona de várias horas, e este filme até é razoavelmente curto – sobre o significado da vida, e a marca que deixamos no mundo. Aquele homem idoso apercebe-se, finalmente, que gastou décadas de vida numa sala atafulhada de papéis sem fazer nada e que, por isso, a sua existência foi uma perda de tempo. Assim, ele começa a procurar dar outro significado aos derradeiros meses. O filme está cheio de momentos incríveis, como aquele em que os burocratas juram seguir o exemplo do seu velho colega sabendo, como nós também sabemos, que tais palavras são vãos balbucios de bêbados cheios de vergonha de si próprios, ou ainda a tensão entre pai e filho quando a herança paterna fica ameaçada pelo comportamento imprevisível daquele homem.
Quem conhece minimamente o Japão sabe que, em geral, os japoneses são perfeccionistas e meticulosos, estão habituados a dedicar-se a 110% naquilo que fazem, e são educados numa sociedade que cultua a humildade extrema, quase servil, e o respeito pelas hierarquias e pelos mecanismos “institucionais”. Ao contrário de nós, latinos, eles nunca procuram atalhos para contornar burocracias ou passar por cima de certos estorvos, como nós fazemos. Os japoneses, mais até do que cumprir a lei, adoram cumprir regulamentos e fazer tudo conforme o que deve ser. E o director mostra-nos a maneira como isso, de certa forma, criou uma administração pública paralisada por interesses ou desinteresses de pessoas poderosas, atulhada de papéis sem serventia e de funcionários que empurram os arquivos de departamento para departamento ao invés de lhes darem solução. Aqueles funcionários podiam também ser de uma empresa multinacional, ou de quaisquer outros serviços: são pessoas que nada fazem, que desperdiçam as suas vidas e obrigam outros a fazerem o mesmo enquanto esperam a solução das suas petições. São parasitas. No fim, a mensagem do filme é o bom e velho “carpe diem”: a melhor maneira de darmos significado às nossas vidas é procurarmos a nossa felicidade e a dos que nos rodeiam, e não perdermos tempo com coisas que se podem resolver com um pouco de boa vontade e empenho de cada um.
As interpretações de Takashi Shimura e de Miki Odagiri são magnéticas, e os dois actores merecem parabéns pelo seu trabalho. O filme tem uma cinematografia muito bem feita, excelentes cenários e bons figurinos. Como eu disse, o filme é um pouco longo demais, é possível fazer uma versão cortada com cerca de uma hora e cinquenta minutos sem perder quase nada de importante. O filme também quase não tem banda sonora e isso, aliado à duração e aos momentos mortos, pode entorpecer o público. Desta vez eu lidei bem com isso, mas Kurosawa tem esse problema.
Em 09 Oct 2025