Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme complexo, com um roteiro que aborda muita coisa ao mesmo tempo.**
Antes de começar a escrever a minha crítica a este filme, acho que devo deixar uma nota de contextualização pessoal: eu sou católico romano, praticante regular, e vivo num país onde a quase totalidade da população também se declara como católica, embora com uma regularidade nas celebrações muito flutuante, uma juventude cada vez mais alheia à fé e à espiritualidade (ou permeável a formas diferentes de a viver) e um número crescente de imigrantes estrangeiros com outras crenças religiosas. Portanto, eu vejo este filme com o olhar de alguém que pertence à Igreja Católica e que a conhece profundamente.
O filme traz-nos uma história bastante intensa e dramática onde, após substituir um outro sacerdote mais velho, um jovem padre razoavelmente ortodoxo e rigorista é confrontado com um coadjutor mais velho que tem ideias radicalmente diferentes das suas. Além deste choque ideológico, o jovem sacerdote vai ter de combater contra os próprios impulsos homossexuais, acabando por cair em tentação e em desgraça junto dos seus superiores e da comunidade onde está. Pelo meio, há ainda uma questão sobre o celibato de um destes padres e uma outra, envolvendo uma menor sexualmente abusada por um pai incestuoso.
Eu consigo perceber o quanto este filme foi incómodo para os católicos em 1994. Apesar de o filme ter sido lançado há trinta anos, a sua história não podia ser mais actual. Em 1994, a Igreja ainda era guiada por João Paulo II que, apesar do mérito de ter viajado, enfrentado questões políticas e sociais complexas e aberto os corredores do Vaticano ao mundo, era também ultraconservador em matéria moral. Hoje, o papa Francisco convida-nos a adoptar uma postura mais aberta e compreensiva, como vemos na sua mais recente encíclica, “Fiducia Supplicans”, onde convida ao acolhimento não só dos homossexuais, mas, também, dos divorciados recasados em união civil. Recordando o papel agregador da Igreja, onde todos devem encontrar um lugar para falar com Deus, independentemente dos seus pecados, o Papa convida-nos a não os condenarmos, o que não significa que os actos homossexuais tenham deixado de ser um pecado aos olhos da Igreja. O que o Sumo Pontífice nos recorda é que quem deve julgar os pecados é Deus e não nós. Claro, tem havido muito celeuma em torno disto, e se as palavras de tolerância do Papa ainda hoje podem escandalizar os fiéis e o clero, imagine-se o que este filme terá feito há trinta anos! A somar a isto, temos o confronto entre a ortodoxia pura e as ideias socialistas da Teologia da Libertação, que na década de 90 ainda vivia entre alguns teólogos e padres na América do Sul e nalguns países africanos, além de uma forte “alfinetada” à questão do celibato, obrigatório para os sacerdotes católicos e cada vez mais contestado, inclusivamente pelos próprios, dado o seu carácter antinatural. Não sendo uma questão moral ou dogmática, o Papa poderá mudar essa exigência quando quiser, mas Francisco não é tão liberal assim.
O roteiro, como podemos ver, é muito rico e traz questões muito complicadas, não só do ponto de vista eclesiástico como também do ponto de vista moral. Porém, eu senti que o filme, ao disparar em tantas direcções, acaba por não explorar nenhuma e apostar mais na trama “gay friendly” que seria mais fácil de vender na bilheteira. Recorde-se que foi nesta época que o movimento homossexual deu os primeiros passos na Europa, por importação dos Estados Unidos. A segunda parte do filme é particularmente mal feita, com excessivo melodrama e soluções fracas para todas as problemáticas criadas anteriormente.
Tecnicamente, o filme é bastante bom: a cinematografia é regular, mas os cenários e os figurinos compensam, assim como a maneira cuidadosa com que a liturgia foi recriada e encenada. O ritmo é agradável, considerando as coisas como elas são, e as cenas de nudez são razoavelmente toleráveis no contexto em que se encontram. Linus Roache encabeça um elenco forte e competente, e faz um trabalho bastante digno. Porém, Tom Wilkinson parece mais forte e mais impactante, e rouba os holofotes sempre que ambos contracenam. Cathy Tyson e Robert Carlyle dão-nos boas interpretações de apoio.
Em 08 Feb 2024