Autor: Pedro Quintão
Já vou na terceira visualização de Contratiempo, desde que o vi pela primeira vez, algures em 2018 ou 2019, e continua a ocupar um lugar de destaque entre os meus thrillers de mistério preferidos, daqueles que não perdem impacto mesmo quando já sei a grandiosa surpresa final. É fascinante revê-lo, pois apercebi-me que as pequenas pistas estiveram presentes durante o filme inteiro, como se o realizador nos dissesse “eu avisei, vocês é que não viram”.
O que mais me cativa sempre é a forma como a narrativa se desenrola. Não é nenhum mindfuck, que nos obriga a pesquisar teorias para interpretar a mensagem, mas uma estrutura não linear que nos pede atenção. Tudo pensado ao detalhe. Os diálogos são fáceis de acompanhar, mas densos o suficiente para perdermos detalhes importantes se nos distrairmos cinco segundos, pois está sempre a acontecer algo de importante. Sinto que a narrativa em torno de um homem que é o principal suspeito do homicídio da sua amante e, sobretudo, a forma como é contada, demonstra-se como uma homenagem aos grandiosos trabalhos de Hitchcock.
As interpretações ajudam muito a criar a atmosfera que marca Contratiempo. Há algo de único na maneira como os personagens falam, observam, mentem, reagem, que mantém sempre a sensação de que há algo por descobrir. Adrián Doria e Virginia Goodman são duas personagens fascinantes, que jogam um perigoso jogo onde nada é o que parece. Achei que teve uma vibe semelhante ao que acontece em Prisoners ou Gone Girl onde a força do filme está na forma como os detalhes são posicionados e reposicionados até xeque-mate final.
E depois há o twist, onde se resume a um único momento em que tudo encaixa. É um dos melhores plot twists do género, capaz de deixar a maioria a pensar “mas como é que eu não vi isto?”. A minha mãe caiu totalmente na armadilha quando o vimos na pandemia. O meu irmão, recentemente, teve a mesma reação. Eu próprio, mesmo já sabendo o que vinha aí, senti aquele prazer estranho de ver o puzzle recompor-se novamente à frente dos meus olhos.
No meio de tantos thrillers que tentam ser mais inteligentes do que realmente são, Contratiempo destaca-se por ser elegante e inteligente sem qualquer presunção. É por isso que, para mim, continua no meu TOP 25 de filmes da minha vida e não me parece que vá sair tão cedo. É envolvente, inteligente, atmosférico e deixa aquela sensação rara de satisfação total no final. E é isso que um bom thriller deve fazer.
Em 11 Dec 2025