Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme que capta atenções pela polémica, mas é mais puritano do que parece.**
A julgar pelo título, eu pensei que este filme seria apenas mais um dos muitos filmes de drama erótico que pulularam nos cinemas durante os anos 80 e 90, mas o que acabei por encontrar era consideravelmente melhor: dirigido por Adrian Lyne, o filme é um drama romântico que não soa excessivamente meloso e que traz uma história interessante, com a sua pitada de polémica, e um elenco de luxo.
É uma poderosíssima ferramenta, o dinheiro: pode salvar um homem ou acabar-lhe com a vida, e até com a alma. Quantas pessoas não há que matam ou morrem por dinheiro, ou arruínam vidas alheias? Uns consideram-no a fonte dos pecados e maldades humanas… outros consideram-no o motor que move a Humanidade. Pode um homem comprar o amor de uma mulher, ou só a sua atenção e o seu corpo? O tema não é bem uma novidade, no cinema ou na vida real, e apesar de ainda ser polémico a verdade é que não faltam por aí maridos que achariam a proposta sedutora, seja pelo dinheiro em causa, seja pela simples tara sexual de saberem que a esposa está na cama com outro homem com a sua permissão.
O director trabalha bem com a tensão dramática que vem do conflito entre personagens e consegue não deixar o filme excessivamente piegas ou chorão, ainda que haja momentos para as emoções falarem. A produção fez um esforço para dar à personagem de Redford uma imagem de poder e ostentação, criando um ambiente de luxo sem limites, sofisticação e dinheiro que escorre pelos dedos como água: temos o cenário em Las Vegas e o barco, e também as casas e os figurinos, dignos da alta costura europeia. A cinematografia aposta em cores como o dourado e branco quando Redford está presente, evocando não só o seu poder, mas também o vazio, a falta de calor humano e de amor, ao contrário do que vemos envolvendo o casal: cores vivas, vibrantes, ambientes alegres e cheios de vida e sonhos. Eles podem não ter um centavo no banco, mas têm o que mais importa: o amor construído e sólido. A edição é excelente, imprimindo movimento ao filme, sem momentos mortos. E claro, há um pouco de nudez, mas é um filme puritano considerando os temas que traz.
A trama é o que sabemos: um milionário propõe a um jovem casal, que acabou de perder tudo no casino, um milhão de dólares por uma noite de sexo com a mulher. E essa acaba por ser a maior falha do filme: seja através do título escolhido ou de detalhes no seu primeiro terço, é fácil demais adivinhar o que vai ser proposto e o que vai suceder depois disso. É um filme que não traz surpresas, é previsível como uma linha recta. Além disso, há, sim, uma pieguice barata que ocasionalmente aparece para estragar tudo, especialmente quando o casalinho está a brigar pela quarta ou quinta vez consecutiva e o público só quer que eles assinem o divórcio depressa para se calarem. Afinal, foram eles que se meteram naquela confusão, ninguém os obrigou, não há como sentir pena por eles!
O ponto mais forte do filme é, talvez, a soberba interpretação de Robert Redford. Este é um dos filmes que marcou a carreira dele, e foi também um grande desafio para um actor habituado a papéis muito mais benignos e simpáticos. A personagem dele aqui tinha que ter uma personalidade muito mais complexa e o actor correspondeu inteiramente. Demi Moore está igualmente em boa forma, dando-nos um trabalho cheio de ‘nuances’ e que fez muito para consagrá-la como uma das mais requisitadas actrizes dos anos 90. A maneira como ela contracena com Woody Harrelson é magnífica. Eu cheguei mesmo a duvidar se ele conseguiria dar à personagem a tónica adequada, porque convenhamos, Harrelson não é propriamente um galã, mas ele parece adequado para o que a personagem exige dele: é um homem bom com um coração bom e fragilidades óbvias. Então funciona muito bem!
Em 29 Nov 2025