Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme de ‘suspense’ entorpecente e sonolento, que é bom, mas poderia ser ainda melhor.**
Francis Ford Coppola é um dos mais aclamados cineastas de todos os tempos, mas este é um dos seus trabalhos menos conhecidos do público: aninhado entre os filmes da trilogia “The Godfather”, passou discretamente por entre a sensação deles e é considerado uma obra menor. Isso não significa que é mau: não é um filme brilhante, mas é bom.
Na época em que foi lançado, em plena “détente” entre os EUA e a União Soviética, ainda se falava muito de espiões, da guerra de espionagem e do recurso a sistemas electrónicos de vigilância e escuta para escrutinar pessoas e ambientes. O Caso Watergate estalou por esta altura, bem como as famosas cassetes que Nixon gravava secretamente na Sala Oval, e cujo conteúdo nunca revelou, preferindo abandonar a Casa Branca. Portanto, não me surpreende que o tema do filme sejam as escutas, a vigilância discreta e a forma como a informação pode ser usada para prejudicar ou cometer crimes. Era algo actual e que todos os americanos conheciam dos jornais. O filme aborda o tema de modo crível ao colocar um detective privado, especialista neste tipo de vigilância, perante um dilema complicado de moral: deve dar o material comprometedor que conseguiu à pessoa que o contratou, e ignorar o perigo mortal que parece ameaçar duas vidas humanas?
Tecnicamente, o filme é eficaz. Coppola garante bem o seu trabalho, ainda que possamos discordar de algumas das suas opções, e o filme desenrola-se bem e procura construir um ‘suspense’ sólido através da narrativa e do andamento da acção. Infelizmente é demasiado lento, gastando tempo demais em cenas que podiam ter sido encurtadas na sala de edição para imprimir um ritmo mais elegante e menos cansativo para o público. A ausência de banda sonora e efeitos de som por muitas das cenas ainda o torna mais entorpecente. Eu confesso que adormeci nas duas primeiras tentativas para o ver, sendo que na segunda eu acordei assustadíssimo numa das cenas finais, devido a um alto grito que se ouve.
Além do ritmo exasperantemente cansativo, o filme tem ainda um problema adicional: Gene Hackman. O actor é muito bom, e faz o seu trabalho de maneira impecável, mas eu senti-me incapaz de me importar com a personagem dele. Para mim, era um homem que vivia uma existência monótona, morna como o café com leite, sem apego, sem ligações. Um homem que não me despertaria qualquer simpatia ou antipatia, um estranho por quem se passa e que não merece atenção. Colocar uma personagem destas no meio da história, em meio a um dilema moral, parece-me pouco inteligente. O restante elenco também não consegue ser melhor: os vilões são previsíveis e fazem o que os vilões devem fazer, e os dois actores que deram vida ao casal alegadamente ameaçado são meros figurantes numa história onde não possuem qualquer tipo de importância real.
Em 24 Feb 2025