Autor: Filipe Manuel Neto
**É melhor esquecer este filme.**
Como já disse anteriormente, na resenha que escrevi para o filme “Ghost Rider”, não sou um fã nem sequer um perito em banda desenhada, pelo que vou ignorar o material de origem e focar-me no filme. Não sou a pessoa indicada para dizer se é ou não uma adaptação fidedigna. Porém, posso desde já dizer que é um mau filme. Com todas as suas fraquezas, o primeiro filme era uma obra de arte quando comparado a esta peça infeliz.
O maior problema deste filme é ser uma sequela pensada para obter dinheiro. Os produtores e os estúdios nem se deram ao trabalho de tentar disfarçar a ganância, e esfregaram as mãos com a boa bilheteira obtida. Mal recebido pela crítica, alvo de inúmeras críticas do público, mas um relativo sucesso de bilheteira, o filme inicial abriu o caminho para esta sequela, o que não seria totalmente mau se fosse boa. Infelizmente, quase toda a produção e elenco do primeiro filme (com excepção de Nicolas Cage) está ausente deste projecto, que adopta uma linguagem visual e dramática totalmente diferente do filme anterior e corta, assim, com qualquer hipotética continuidade.
O roteiro é medíocre e assenta numa luta entre Johnny Blaze, o Motoqueiro, e forças maléficas especialmente poderosas que querem raptar uma criança, supostamente filha do Diabo e chave para o Armagedão. Simples, extremamente cliché, muito mal elaborado e mal desenvolvido, é um roteiro digno de um filme B dos anos 70. Todo o ambiente denso e algo sinistro que vimos no filme inicial está totalmente ausente, tendo sido substituído por uma coisa “hard rock” mais ligeira e eventualmente pensada para jovens adultos e adolescentes aspirantes a roqueiros. O ritmo rápido com que tudo acontece favorece as falhas de lógica, que surgem no roteiro com a magnificência de palácios barrocos, sendo impossível ignorá-los: o caso dos monges, com vestes medievais e cavernas convivendo com engenhos high tech, armamento que bastaria à Ucrânia por um ano e vinho capaz de embriagar metade das tropas russas, é um dos mais flagrantes. Já prefiro não falar da habilidade para decompor objectos e alimentos que uma das personagens vai adquirir no final, e que parecem funcionar só quando é conveniente para o filme.
Nicolas Cage continua presente no filme, mas é o único do elenco anterior a fazê-lo, posto que todos os outros, com destaque para Eva Mendes e Peter Fonda, desistiram do projecto ao lerem o roteiro. Decisão inteligente. Cage, se não esteve brilhante no primeiro filme, está medíocre na sequela, com uma interpretação unidimensional, apática e sonolenta. Ciarán Hinds está bem e faz um trabalho de grande qualidade e muito digno, mas não tem muito para fazer, enquanto Violante Placido e Idris Elba, apesar dos esforços e de alguns momentos de destaque, não fazem mais do que um esforço mediano.
Tecnicamente, o filme aposta massivamente no CGI de grande efeito visual e dramático, com as chamas e todo o aparato em redor do Motoqueiro a atingir níveis hiperbólicos. As cenas naquela mina são, talvez, o exemplo mais evidente e óbvio daquilo que digo: balas suficientes para uma batalha militar, estragos, fogo por toda a parte, aquela máquina enorme… tudo levado ao extremo para maior grandeza visual e maior espectacularidade. Funcionou às vezes, não se pode negar, mas muitas vezes parece algo tirado de um jogo de computador. Ambientado numa área do centro europeu, o filme foi parcialmente filmado na Roménia e aproveita razoavelmente a beleza dos locais escolhidos. Os cenários e figurinos são decentes, tendo em conta o roteiro e a localização, e a banda sonora é pesada, cansativa e desinteressante. Pior, porém, são os efeitos de som utilizados, porque são muitas vezes claramente falsos.
Em 28 Sep 2022