Autor: Filipe Manuel Neto
**Uma apologia ao individualismo e ao modo de vida dos EUA, este filme apareceu antes do seu tempo, e acabou por não gozar de grande sucesso.**
Esta foi a primeira produção animada digital da DreamWorks, mas, apesar disso, não nos deixou um legado interessante e quase ninguém se lembra dela. O seu lançamento ocorreu logo após o sucesso de “Toy Story”, da rival Pixar, e foi pouco depois esquecido quando o mesmo estúdio lançou “A Bug’s Life”, um filme menos adulto e mais familiar, que em muitos aspectos é um competidor directo. Passados poucos anos, tudo foi esquecido com o lançamento de “Shrek”, que consolidou a DreamWorks como um dos grandes estúdios de animação do nosso tempo. Portanto, em certo sentido, foi um filme que apareceu na altura errada e que poderia ter tido mais impacto noutro momento.
O roteiro apresenta-nos Z, uma formiga operária que se sente insatisfeita com a sua vida num formigueiro onde parece existir um regime comunista à moda chinesa: a vontade e o valor de cada um são anulados em detrimento do interesse colectivo, do que cada um pode fazer pelo Estado. Isto incomoda muito Z, que anseia pelo individualismo americano e pela oportunidade de decidir a sua vida sem se importar com as necessidades da sua comunidade. Em meio a tudo isto, ele apaixona-se pela princesa Bala num típico romance condenado por diferenças sociais e torna-se um improvável herói de guerra ao sobreviver a uma guerra fazendo a única coisa que sabia: esconder-se. Claro, existe um grande vilão: o general das formigas, desejoso de transformar o reino numa ditadura militar de cunho fascista, destronando a monarquia e tomando o poder para si.
A maneira como eu resumi a trama parece bizarra, mas é exactamente como eu a consigo ver: usando formigas e um formigueiro como ambiente, o filme basicamente faz uma tese em defesa do capitalismo individualista norte-americano, condenando severamente tanto os fascismos e ditaduras quanto os modelos políticos de extrema-esquerda. A forma como a rainha e a princesa se tornam reféns indefesas também pode ser vista como uma crítica leve às monarquias europeias, onde os soberanos são desprovidos dos poderes que teriam direito a usar noutras circunstâncias. O herói é um individualista ansioso por decidir o seu destino pela sua própria cabeça, e que não parece nada preocupado com a sociedade aonde se insere, chegando ao ponto de desejar ir-se embora para outro lugar utópico, a “terra do leite e do mel” que os imigrantes costumam desejar encontrar. Basicamente, é um filme de crítica sociopolítica forte, e de defesa do modo de vida americano.
Contando com um elenco poderoso de actores que emprestaram as suas vozes às diversas personagens, é um trabalho de grande apuro técnico aos mais vários níveis. Woody Allen assegura a voz de Z de uma forma impecável, dando-lhe boa modulação e personalidade, e Sharon Stone confere a Bala uma voz sensual e densa, mas que não parece maliciosa. Sylvester Stallone também faz um trabalho muito interessante, mas Christopher Walken e Gene Hackman merecem um louvor especial pela maneira como deram voz às suas duas personagens. Pelo meio, poderemos ainda ouvir excelentes contributos de Dan Aykroyd, Anne Bancroft, Danny Glover e Jeniffer Lopez. A banda sonora é profundamente bonita e confere ao filme a atmosfera ideal em cada momento. Quanto aos visuais, não há nada a apontar: é um filme da DreamWorks, eles são dos melhores no que concerne à animação computorizada e não deixaram os seus créditos em mãos alheias.
Em 15 Mar 2025