Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme elegante, visualmente bonito, historicamente bem feito, mas muito limpo de todas as controvérsias que poderia abordar.**
O romance “As Quatro Penas Brancas” foi adaptado para o cinema diversas vezes, desde os tempos do cinema mudo. Antes de ver este filme, eu tinha visto uma versão de 1939, e as semelhanças de ambos os filmes são quase tão assinaláveis quanto as suas diferenças. Qual deles será o que se aproxima mais do romance original? Eu não sei, não li o romance, mas aposto mais na versão mais antiga.
Não sei se vale realmente a pena falar do roteiro: Harry Faversham, um jovem britânico filho de um general, é impelido pelo pai a seguir a tradição familiar e torna-se oficial. Porém, dias antes de o seu regimento embarcar para a guerra, no Sudão, para enfrentar a Revolta Mahdista, ele pede para se desligar das forças militares, adquirindo com isso o rótulo de covarde, assinalado pela oferta das famosas penas brancas. Perante isso, ele muda radicalmente de ideias, e resolve ir, por sua conta e risco, para o Sudão, sozinho, na ideia de devolver-lhes as penas.
Bem, o que os filmes mais antigos tinham de bom era o condão de fazerem esta história parecer mais realista, explicando bem as motivações iniciais da personagem para não ir e, depois, tendo uma aposta inteligente nas questões da honra, da reputação, dos brios masculinos. Sem isso, a mudança de ideias do protagonista não faz sentido: ele não conseguia ir lutar numa guerra distante, mas sente-se capaz para ir para lá sozinho e apenas porque o chamaram covarde? Dito assim, não faz sentido, e esta adaptação cinematográfica lidou mal com essa mudança de pensamento, não a explica devidamente e faz com que tudo pareça frívolo. A relação romântica entre Faversham e Ethne também nunca parece realmente sólida. O final é totalmente alterado e acaba por ser mais aceitável do que o final heróico e patriótico do filme de 1939.
Heath Ledger é um bom actor e está em boa forma neste filme, que será certamente um dos mais interessantes da sua (infelizmente) curta carreira. Também gostei bastante do trabalho de Wes Bentley e Djimon Hounsou. Mas os méritos do elenco terminam aqui. Kate Hudson nunca se esforçou, parece simplesmente feliz pelos vestidos bonitos que usa, e o resto do elenco não tem o tratamento e o desenvolvimento que deveria ter.
Tecnicamente, o filme é muito bom. Houve, claramente, um esforço muito grande ao nível do rigor histórico, principalmente no que diz respeito aos fardamentos militares, aos equipamentos e às tácticas militares, num período em que há muita e fidedigna informação publicada – era a época vitoriana, a era da grande expansão do império britânico e da colonização da África. Há, todavia, um certo cuidado para não mexer em “vespeiros” como o enorme etnocentrismo que os britânicos cultivavam na época, o racismo, a apologia do império e da “missão civilizadora” que os europeus tinham a fazer na África “selvagem”. O filme ambienta-se nesse período, mas evita ao máximo tocar nesses pontos de forma contundente. Talvez os produtores tivessem um certo medo de ver DVDs do filme presos na próxima estátua de um colonizador branco que um grupo de estudantes fanatizado resolvesse deitar abaixo em Inglaterra. O filme também teve um cuidado especial na recriação dos cenários e ambientes, e na cinematografia, resultando numa obra esteticamente bonita e elegante. A banda sonora, confesso, não me convenceu.
Em 31 Dec 2022