Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme que pode levar o público à beira da agonia, mas que não traz uma boa história.**
Confesso que esperava muito pouco deste filme quando me decidi a vê-lo, ontem à noite. Já vi filmes de terror suficientes para saber, mais ou menos, o que esperar da maioria das produções, pelo que é difícil para mim surpreender-me verdadeiramente. E foi mesmo o que verifiquei aqui: o filme vinha sendo desenhado pelos críticos da especialidade com cores muito vibrantes, como se fosse um novo “Exorcista” ou algo parecido, e eu acabei por discordar radicalmente de tudo isso. Sim, é um bom filme de terror, dentro do estilo que, declaradamente, assume (o slasher básico de monstros), e é indubitavelmente bem concebido tecnicamente… mas não é um filme maravilhoso que eu deseje voltar a ver.
Conheci Neil Marshall após ter visto “The Centurion” e gostei bastante do que ele fez ali. Neste filme, ele parece não ter tido a mesma folga financeira, nem a mesma experiência, mas compensa isso com uma atenção aos detalhes técnicos muito positiva. A filmagem é excelente, a cinematografia funciona verdadeiramente bem e os cenários, construídos em estúdio, são verdadeiramente realistas e transferem para o público uma sensação terrível de claustrofobia e opressão. A concepção dos monstros beneficiou largamente de um bom trabalho de maquilhagem e algum CGI adicional, e os efeitos visuais e sonoros são bem concebidos e eficazes. Ambientando-se numa caverna e obrigando as personagens a uma movimentação limitada, não é um filme que eu recomendaria a pessoas que padeçam de claustrofobia ou que já tenham ficado presas em algum lugar.
Para além dos detalhes técnicos que fui mencionando, o director parece ter tido cuidado especial na direcção do seu elenco. Nenhuma das actrizes é particularmente notável, nem temos nomes sonantes a assinalar. No entanto, o que temos neste filme é suficientemente eficaz e competente para aguentar as exigências e desafios propostos pelo director e pelas suas personagens. Shauna Macdonald, a quem calhou a personagem mais destacada, faz um trabalho decente, mas não é brilhante nem foi capaz de aproveitar a oportunidade para mostrar qualquer valor adicional. A colega de elenco Natalie Mendoza, numa personagem com mais garra e vitalidade, parece-me ter feito um trabalho um pouco melhor.
O que claudicou mais neste filme foi a escrita do argumento: o director consegue construir o ‘suspense’ que deseja, e até mesmo tornar o filme duro de ver em alguns pontos, mas não é capaz de igualar tudo isso com uma boa trama: a história contada é altamente previsível, tem todos os clichés a que estamos habituados e uma gama de sustos que não funcionam. Eu até estou disposto a aceitar que o grupo de amigas resolvesse arrastar a protagonista numa pequena aventura após tudo o que lhe aconteceu, mas é difícil acreditar que todas tenham sido tão idiotas a ponto de resolverem entrar numa gruta quase desconhecida sem que ninguém cá fora soubesse disso e pudesse chamar ajuda. É como eu decidir fazer uma aterragem de avião sem nunca ter sequer entrado numa cabine de pilotagem.
Em 24 Nov 2025