Autor: Pedro Quintão
**Season 1:**
Heated Rivalry foi uma série que comecei a ver por pura curiosidade. Durante semanas li vários artigos a assegurarem que era “a série do momento”, intensa, explosiva e com um retrato bastante realista da homossexualidade. Confesso que fui um pouco com o pé atrás, principalmente porque envolve desporto e eu nunca fui grande fã de histórias centradas no mundo desportivo. Tanto na vida real, como na ficção. Mas a verdade é que a série conseguiu agarrar-me desde os primeiros 5 minutos.
A narrativa acompanha Shane Hollander e Ilya Rozanov dois jogadores de hóquei que são grandes rivais dentro do ringue, quase como um Cristiano Ronaldo e um Messi dentro desse desporto. Fora dele, escondem uma relação amorosa que começa apenas como algo físico e vai evoluindo gradualmente para algo muito mais profundo. O mais interessante é ver como aquela relação, que começa quase como um segredo impulsivo entre dois rivais, se transforma numa história de amor.
A série percorre vários anos da vida destas personagens e consegue manter sempre um ritmo muito intenso. São apenas seis episódios e praticamente não existem momentos mortos. Há sempre algo a acontecer, seja nos confrontos no campo ou fora dele, mais concretamente na evolução emocional da relação entre os dois protagonistas.
Um dos aspetos que mais me surpreendeu foi a forma natural como a série aborda a homossexualidade. Ao contrário de muitas produções recentes de plataformas como Netflix, HBO e afins, que às vezes transformam este tema em algo caricatural ou exageradamente irrealista ao ponto de parecer desrespeitador e puramente estúpido, Heated Rivalry retrata a sexualidade das personagens com uma naturalidade enorme, através da humanização delas, apresentando-nos as suas dúvidas, fragilidades e receios, mostrando que até mesmo os homens mais poderosos têm os seus fantasmas.
As cenas de sexo também seguem essa lógica. São bastante ousadas, mas nunca parecem filmadas apenas para chocar ou gerar polémica, como por exemplo, acontece em inúmeras outras produções com personagens homossexuais ou heterossexuais. Pelo contrário, os momentos de intimidade são perfeitamente naturais, como qualquer relação íntima entre duas pessoas é na realidade. Destaco claramente o trabalho do coordenador de intimidade, que conseguiu encontrar um equilíbrio certo entre provocar e respeitar.
Curiosamente, até as sequências de hóquei funcionaram para mim. Mesmo não sendo fã de desporto, acabei por ficar preso na rivalidade entre os dois jogadores e na tensão competitiva que existe entre eles.
Se há algo que a série poderia melhorar, talvez seja o desenvolvimento das personagens secundárias. Tudo acontece muito rápido e senti que algumas dessas personagens mereciam mais tempo para crescerem dentro da história. Existe um episódio dedicado a uma personagem secundária que funciona muito bem, mas no resto da série fiquei com vontade de conhecer melhor outras figuras daquele universo.Mesmo assim, essa é praticamente a única crítica que tenho.
Heated Rivalry acabou por ser uma surpresa enorme para mim. Eu nem sequer costumo ver muitas séries, mas esta conseguiu prender-me do início ao fim. No centro de tudo está uma história de amor muito bonita, mas também uma reflexão sobre medo, identidade, vulnerabilidade e, sobretudo, sobre aceitação. Desconheço o livro que adapta, mas nota-se que houve respeito pelos temas que retrata.
E sinceramente, numa época em que as maiores plataformas de streaming pegam em temas relacionados com a sexualidade somente para causarem polémica e gerarem buzz (acabando muitas vezes por ajudar na criação de opiniões preconceituosas e estereotipadas), Heated Rivalry opta por contar uma história íntima, realista e profundamente humana, enquanto se mantém provocante. Serve para levar alguns espectadores a refletirem que, independentemente de sermos heterossexuais, bissexuais ou homossexuais, todos somos seres-humanos e a sexualidade é algo absolutamente normal, que deve ser respeitado.
Em 09 Mar 2026