Autor: Filipe Manuel Neto
**O filme que praticamente fundou o subgénero de zombies.**
Como já disse noutras ocasiões, eu não sou fã, de todo, de filmes de zombies e criaturas similares. É um tipo de cinema de terror com forte apelo gráfico que não me cativa muito. Porém, confesso que gostei deste filme. É muito mais moderado na sua abordagem a este tipo de monstros, e eficaz na construção da tensão e do ‘suspense’. Não assusta (eu acredito que tenha sido muito assustador na época, mas estamos noutros tempos), mas entretém.
A história contada não nos dá grandes explicações: vemos dois irmãos que visitam uma sepultura de um cemitério isolado e, ao regressarem ao carro, são perseguidos pelo que se assemelha a um homem muito perturbado. É obviamente um zombie, e nós sabemos, mas as personagens não sabem e ficam extremamente confusas com o que acontece logo em seguida: um grupo cada vez maior de zombies os ataca e força a procurar abrigo numa casa das redondezas, onde pouco depois se apercebem que não estão sozinhos e, graças a um rádio e a uma televisão, que o problema não é ali, mas sim algo nacional.
George Romero foi muito inteligente na maneira como idealizou e escreveu o filme, que é uma produção inteiramente independente e fruto da carolice de todos os envolvidos. É um trabalho inovador, foi um dos primeiros filmes a trazer os zombies para o universo do terror e a influência de “Carnival of Souls” é bem clara na cinematografia, na forma como o som e a banda sonora foram sendo trabalhados. O orçamento curto obrigou a produção a um grande pragmatismo e eficácia, a fazer muito com pouco e privilegiar a credibilidade e autenticidade. Gostaria de destacar alguns efeitos eficazes como a carne comida pelos zombies, o sangue falso e os cocktails molotov. A concepção dos cenários e escolha dos locais de filmagem também está de parabéns.
O elenco tem alguns poucos pontos a seu favor, mas é essencialmente amador e procura só fazer o que tem de ser feito. Apesar de ser um assunto menor e que não costuma ser alvo de grande reflexão, parece-me significativo destacar a opção por um actor negro para o papel principal. Duane Jones, no filme da sua vida, faz um trabalho muito bem feito, de grande empenho e que cumpre tudo o que é necessário. Karl Hardman é apenas irritante e as duas actrizes, Judith O’Dea e Marilyn Eastman, não acrescentam rigorosamente nada de positivo ao filme, limitando-se a parecer indefesas o tempo todo.
Em 11 Apr 2024