Autor: Filipe Manuel Neto
**Mantém o nível do antecessor, mas a trama devia ser mais amadurecida, menos açucarada e assente numa premissa diferente.**
Este filme é a continuação do seu antecessor: observamos como Stuart Little se sente mais sozinho, agora que George, o seu irmão, tem outro amigo para brincar. A relação entre os dois também é prejudicada por quezílias que magoam o ratinho branco, que deseja muito viver e experimentar coisas novas apesar da oposição super-protectora da Sra. Little. De modo que Stuart fica encantado quando trava amizade com Margalo, um canário fêmea a quem salva das garras de um falcão. O que ele não sabe é que Margalo é, na verdade, uma aliada do falcão num esquema de roubo de jóias em que os Little são as próximas vítimas.
Gostei bastante do primeiro filme, mas acho que não carecia de uma continuação. Nesse filme inicial, a dinâmica da trama assentou fortemente na relação entre Snowbell, o gato, e Stuart, o pequeno ratinho branco que foi adoptado como um filho pelos donos da casa. Isso foi, em última análise, salvífico para o filme inicial, tirando o foco das personagens humanas, excessivamente doces e enjoativas. Infelizmente, a equipa de argumentistas foi incapaz de corrigir o excesso de doçura. Eles poderiam perfeitamente ter aproveitado as premissas da trama, que começa muito bem, e criado um enredo mais profundo, sobre as relações familiares e a superação de conflitos numa família, por exemplo. Ao invés desse amadurecimento, eles preferiram manter a doçura ao mesmo nível enjoativo, inserir mais animais e uma historieta de aventuras, e ainda dar um pouco mais de palco às personagens humanas, mais parvas e irritantes do que no primeiro filme. Sim, apesar de eu ter gostado bastante do filme inicial, não consigo engolir o optimismo excessivo e a parvoíce infantil da Família Little. Não parecem, simplesmente, pessoas adultas.
Enfim, apesar das minhas objecções, eu reconheço que o filme ombreia com o antecessor e dá bom entretenimento às crianças (e talvez um enjoo tremendo aos adultos na sala). E as novas personagens inseridas no filme, em especial Margalo, são adoráveis. Snowbell, o gato, foi beneficiado com melhores diálogos e boas piadas, e torna-se o rei da comédia no filme. A fotografia e o CGI funcionam muito bem. Falhas: a previsibilidade de quase tudo e vários problemas de lógica difíceis de aceitar. Por exemplo, a paixoneta que nasce entre Stuart, que é um rato, e Margalo, que é um canário fêmea, e que surge totalmente a despropósito, a forma como o filme descarta totalmente os problemas existentes entre os dois irmãos (George e Stuart), e também a própria existência da Casa Little, uma casinha minúscula em plena Manhattan, onde semelhante imóvel só sobreviveria à ganância e ao camartelo imobiliário se viesse a ser considerado Património Histórico.
Entre o elenco, o palco vai inteiramente para os actores de voz que dobraram os animais. Michael J. Fox continua a fazer um bom trabalho com Stuart, Nathan Lane brilhou graças ao excelente material recebido para trabalhar, James Woods fez um trabalho digno e, por fim, Melanie Griffith dá um toque de charme com a voz de Margalo. Entre os humanos, o destaque vai inteiramente para o jovem Jonathan Lipnicki, que faz tudo bem feito. Hugh Laurie e Geena Davis pouco acrescentam, ainda que mantenham o nível do filme inicial.
Em 27 Dec 2024