Autor: Filipe Manuel Neto
**Sem mérito nem glória.**
Esta prequela de "O Exorcista" procura seguir o primeiro confronto entre o jovem Padre Merrin e Pazuzu, o que vai contrariar as cenas de abertura do primeiro filme desta franquia. O ambiente do filme é situado, mais ou menos, no Quénia Britânico, onde os arqueólogos acabam de descobrir, para seu espanto, uma capela bizantina grega em perfeitas condições, deliberadamente enterrada imediatamente após a sua construção.
Ao longo do filme há exageros óbvios, fruto de um mau roteiro e de um director indolente. Renny Harlin pode não ser o pior director de todos os tempos, mas definitivamente não é um dos melhores que eu já vi trabalhar. Falta-lhe a força e o discernimento para observar as falhas de verosimilhança do roteiro, e a capacidade de dirigir bem o elenco que tem, e que é competente. De facto, o roteiro cola a arte bizantina a uma capela cujo interior não tem nada a ver com esse estilo, além de estar totalmente fora da área geográfica dos bizantinos. Tudo bem que o filme é pura ficção, mas tinham de inventar algo tão inverosímil assim?
O Padre Merrin é a personagem mais densa e completa do filme. Interpretado por Stellan Skarsgård de uma maneira relativamente satisfatória, é um padre em dúvida devido ao remorso e aos traumas da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso foi bem usado e inteligentemente desenvolvido ao longo da acção. Outra coisa que gostei foi o sub-enredo romântico, latente mas discreto, entre o padre e Sarah, a atraente enfermeira do campo militar britânico, a qual é interpretada por Izabella Scorupco.
As possessões demoníacas demoram a ocorrer, embora os sinais de presença demoníaca sejam evidentes. O final do filme pode até ser surpreendente, mas só em parte. Bons efeitos especiais e CGI competente poderiam até tentar compensar as falhas do roteiro, mas há igualmente falhas na qualidade dos efeitos e na pertinência dos mesmos. É o caso da caracterização, algo forçada e artificial, que Scorupco usa nas cenas finais, numa desnecessária alusão a "O Exorcista".
Este filme foi um esforço para voltar a trazer para os cinemas um dos ícones do terror, mas foi um esforço sem glória ou mérito para qualquer um dos envolvidos. Será melhor deixar que continuemos a apreciar a força do primeiro filme.
Em 28 Jun 2018