Autor: Pedro Quintão
Send Help tinha tudo para ser mais do que aquilo que acabou por ser. Desde logo por termos o nome de Sam Raimi na realização e por uma premissa que parecia interessante: uma funcionária constantemente rebaixada é forçada a sobreviver numa ilha deserta ao lado do seu patrão arrogante e cínico, o que acaba por criar uma inversão de hierarquias.Rachel McAdams e Dylan O’Brien estão muito bem e a dinâmica inicial entre os dois funciona.
Há algo de interessante em ver o opressor reduzido à dependência absoluta da pessoa que sempre desprezou. Durante algum tempo, o filme segura-se nessa relação e faz-nos acreditar que vai explorar esse jogo de poder até às últimas consequências e sermos surpreendidos por algum acontecimento forte.O problema é que Send Help fica preso aí e só aí. São quase duas horas de duas pessoas numa ilha, presas a uma narrativa rasa, com metáforas óbvias e já gastas. O filme não evolui, nem reinventa e repete a mesma dinâmica até à exaustão. Quando tenta finalmente surpreender, já nos últimos 20 minutos, fá-lo com uma decisão narrativa que pouco acrescenta.Outro dos grandes problemas está no desenvolvimento das personagens. À medida que o filme avança, todas se tornam cada vez mais ambíguas, mas não no bom sentido. Não há profundidade suficiente para justificar essas mudanças e, para mim, tornou-se impossível chegar ao fim e sentir empatia por qualquer uma delas. O meu sentimento era "que se lixem todos".
Talvez não me tenha ajudado vê-lo com expectativas erradas por culpa da própria página do IMDb que categoriza Send Help como "monster horror" e "supernatural movie", o que me levou a acreditar que, a certa altura, descobriríamos que os protagonistas não estavam sozinhos na ilha. Esperava uma ameaça sobrenatural, uma criatura, uma presença estranha ou até algo mais extremo, como uma tribo canibal ou uma ligação com Evil Dead, saga que Sam Raimi criou. Só que nada disso acontece. Foi claramente um erro de categorização que só aumentou a sensação de frustração.
Além disso, o pequeno twist final também não ajudou. Não me surpreendeu minimamente. É uma ideia básica, comum, e facilmente antecipável para quem está habituado a ver thrillers. Em vez de elevar o filme, acaba por confirmar a previsibilidade que vinha a instalar-se há algum tempo.Dito isto, Send Help não é um desastre. Consegue entreter, tem uma estética e uma edição que remetem muito para aqueles filmes genéricos do início dos anos 2000, algo que também se nota na banda sonora. Mas para mim, não justifica o preço de um bilhete de cinema (que ficaram mais caros).
Teria funcionado muito melhor como uma estreia direta em streaming. Enfim, acaba por ficar a sensação de oportunidade desperdiçada. Com este elenco, este realizador e esta premissa, Send Help podia ter sido muito mais. Acabou por ser apenas mediano.
Em 01 Feb 2026