Autor: Filipe Manuel Neto
**Uma boa história, mas que nunca me pareceu credível o bastante.**
Confesso que não tinha bem a ideia do que ia ver quando peguei neste filme. Tenho de começar por dizer que sou católico, praticante, e o meu trabalho coloca-me em contacto directo com os padres e a igreja, portanto esse é um meio que conheço razoavelmente bem. E o que vi neste filme é verdadeiramente bom, e para mim é uma história que soa quase de modo credível… e eu vou explicar o porquê de isso não acontecer.
A história começa num colégio católico, onde uma freira superiora impõe uma disciplina e uma organização rigorosas, e por vezes retrógradas. De facto, a passagem do tempo e as exigências da modernidade impõem-se, mas ela não as quer ouvir. Apesar da sua severidade, ela realmente acredita que faz o mais acertado para os alunos, e importa-se com eles. E esse cuidado vai levá-la a investigar o padre da comunidade, superior hierárquico dela, quando ela pressente que a afeição dele para com um dos alunos está a ultrapassar os limites da normalidade.
O roteiro é realmente bom, e toda a história é envolvente e funciona bem. Todavia, há coisas que realmente não me convenceram, principalmente sendo eu uma pessoa que conhece bem os meandros da Igreja. Começando, desde logo, pela atitude inquisitiva e intimidatória daquela freira superiora para com um padre que está acima dela. Ela não tem provas, ela não sabe o que realmente aconteceu, ela está simplesmente a supor uma coisa, e ele está na defensiva quando podia, perfeitamente, exigir provas e indícios concretos, ou ameaçá-la com uma conversa séria com o bispo local. Na vida real, eu não vejo isto a acontecer de maneira nenhuma. Mais: o filme nunca nos esclarece se realmente aconteceu alguma relação imprópria entre o padre e o jovem aluno… isso é propositado, eu compreendo a intenção, mas é um recurso dramático irritante.
O ponto forte do filme, e creio que isso é algo que todos concordarão, é o elenco e a forma como ele se comporta e trabalha. O filme é um ninho de estrelas, cheio de actores bem conhecidos e extremamente competentes, a darem o seu melhor e a brindarem-nos com performances que são, numa palavra, extraordinárias. O destaque vai, claro, para Meryl Streep, uma actriz que já tem um palmarés cinematográfico tão grande que este filme se torna numa obra menor, sem que isso signifique que é um trabalho menos notável. Ela está quase sempre bem, e quando não está (eu destacaria, pela negativa, as cenas finais do filme, totalmente em desacordo com tudo o que vimos antes) eu diria que isso é culpa do roteiro e do material recebido. Philip Seymour Hoffman também brilhou no papel do sacerdote e Amy Adams parecia credível como uma jovem e emotiva freira. Muito menos interessante, o papel de Viola Davis parece-me ter sido alvo de uma valorização excessiva. Ela é boa, mas praticamente não aparece no filme com excepção de um único diálogo.
Tecnicamente, é um filme discreto. Uma cinematografia contida, mas competente, um trabalho de direcção e edição discretos, mas eficazes. O filme tem bons cenários e figurinos, e o ambiente de época é recriado de maneira convincente e realista o bastante. A banda sonora também não sobressai. O espaço é inteiramente dos actores para brilharem.
Em 09 Aug 2021