Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme excessivamente ambicioso, mas ainda assim interessante.**
Sinceramente, eu esperava um pouco mais deste filme. Fui encontrá-lo na televisão, por mera casualidade, mas já tinha ouvido falar sobre ele, não sei bem a que propósito, mas ficara com a impressão de ser um filme muito bom. Não é tão bom quanto eu esperava, na medida em que se perde um pouco entre a política e o mistério policial, e isso acaba por comprometer o ritmo.
Tudo começa num drama onde um agente do MGB, chamado Leo Demidov, procura proteger a própria esposa após um preso político a denunciar como a sua cúmplice. O esforço resulta, mas é tão evidente que ele a quis proteger que os superiores dele o enviam para uma cidade industrial nos arredores da Ucrânia. Entretanto, ele vai ter de dizer a um amigo que o filho dele morreu num suposto acidente com um comboio, mas é óbvio que a criança foi assassinada. Na nova cidade onde está destacado, Leo descobre muito mais casos de crianças na mesma situação, deduzindo haver um assassino a matar crianças ao longo da linha ferroviária. O problema é convencer as polícias soviéticas de que crimes destes não são apanágio exclusivo do mundo capitalista.
O filme tem bons diálogos e o roteiro é muito bom, mas senti que é muito ambicioso e que acaba por não conseguir lidar bem com isso. É palpável a dificuldade para conciliar os dois sub-enredos, ambos igualmente poderosos e relevantes: o criminoso à solta e o conflito do protagonista com as autoridades fanatizadas com que trabalha. Há outro ponto da trama que me deixa muitas dúvidas, e que se prende com a forma como a esposa de Leo muda radicalmente, de alguém um pouco passivo e sem relevância na história para uma figura activa e cooperante, central para os acontecimentos seguintes. Se por um lado essa mudança permitiu recolocar a personagem no centro dos acontecimentos, também não deixa de parecer uma grande incoerência. O final não é mau, mas é deselegante: o ambiente de tensão e ‘suspense’ dá lugar a mais acção e movimento, bem ao gosto americano, mas em absoluto contraste com o que o filme vinha fazendo.
O elenco conta com vários actores bem conhecidos, começando por Tom Hardy e Noomi Rapace nos papéis principais. Nenhum deles foi mau, são ambos bastante seguros e a interpretação que nos trazem é sólida e bem construída. Joel Kinnaman é um vilão convincente e faz bem o papel de fanático político. Vincent Cassel e Gary Oldman são veteranos bem conhecidos e apostas bem seguras para as personagens secundárias com maior relevo na história. O único reparo negativo que tenho para fazer (e creio que não é culpa dos actores, mas do director Espinosa) é aquele terrível sotaque pseudo-russo que os actores tentaram emular, e que nunca devia ter sido feito. Se o director queria tanto esse tipo de sotaque, então deveria ter procurado actores russos ou de Leste que soubessem falar em Inglês.
Tecnicamente, o filme aposta muito na cinematografia e no trabalho de câmara. Tentou-se ao máximo que estes elementos perpassassem para o público uma diversidade de sensações, do frio cortante do Inverno à atmosfera inóspita, cinzenta, antipática e desconfiada das cidades da União Soviética durante os anos 50. Também gostei bastante dos automóveis, dos uniformes e dos figurinos e cenários, na medida em que houve um bom esforço de reconstrução histórica, no geral. A banda sonora faz o seu papel, mas não fica no ouvido.
Em 17 Dec 2022
Autor: Landwolff
Com esse elenco esperava mais, além da sutil propaganda anti-soviética tentando provar ao mundo ocidental o quão terrível era o regime comunista soviético (lembrando que qualquer regime totalitário não vinga). O filme é inconsistente e por vezes esfria e se arrasta. Poderia virar uma minissérie.
Em 23 Apr 2023