Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme suficientemente bom para ver uma ou duas vezes, mas não mais.**
O universo de filmes de terror sobre demónios, e possessão demoníaca, parece estar agora um pouco sobrecarregado, e a falta de capacidade para ideias criativas, ou que justifiquem mais um filme, leva invariavelmente ao surgimento de algumas bizarrias. É o caso deste filme, onde o Dr. Ember, um homem tem poderes psíquicos e consegue fazer projecção fora do corpo, combate o demónio directamente, indo ao seu encontro e ajudando a alma da pessoa a quem ele está a tentar enganar.
Não me interpretem mal: o filme tem os seus méritos e entretém o seu público de maneira bastante decente. Como filme de terror, e apesar de nunca assustar ninguém, consegue a tensão indispensável para funcionar e é capaz de a manter ao longo de toda a acção. Eu só o achei bizarro, mas isso é uma questão de gosto pessoal e não um defeito. Deixem-me desenvolver isto: ao colocar no centro da acção um psíquico que faz uso de métodos racionais e científicos para combater o Mal, senti que o filme tentou fazer a “abordagem científica” da possessão demoníaca e, talvez, chegar a um público mais céptico, que não acredita tão facilmente na eficácia dos rituais religiosos. Eu posso estar errado, mas foi essa a sensação com que fiquei.
Depois disso, o roteiro introduz mais coisas e aí, sim, há problemas mais sérios: alguém realmente engoliu toda aquela história de o Dr. Ember já conhecer aquele demónio e andar atrás dele durante anos? Uma cruzada pessoal? A sério? E alguém realmente acredita que a Igreja Católica vai chamar um cientista porque pensa que os seus rituais não vão funcionar? O filme termina com uma tentativa de reviravolta que nós vemos aproximar-se a quilómetros de distância.
A nível técnico, o filme não tem realmente muito a apresentar-nos: a maioria dos aspectos que costumamos apreciar estão quase todos dentro do padrão ‘standard’ do cinema comum, das pipocas, que vemos sem pensar muito e esquecemos cinco minutos depois de terminar. Cinematografia, cenários, figurinos, edição, filmagem… tudo dentro dos padrões. Não há grandes erros nem qualquer mérito em particular. A equipa de efeitos visuais e CGI é um caso aparte: há alguns efeitos bem conseguidos, ainda que discretos, especialmente mais perto do final.
O elenco é um dos pontos fortes do filme: Aaron Eckhart fez um trabalho decente, mas o que faz está bastante longe do melhor que já fez em cinema. Ele é um protagonista sólido, carismático e competente, mas não tem material capaz de lhe impor exigências e obrigar a um esforço suplementar. Carice Van Houten (que ficou particularmente famosa após o seu trabalho na série “Game of Thrones”) é convincente no papel da mãe angustiada do rapaz alvo de possessão, mas apesar disso é muito subaproveitada. Catalina Moreno, que eu conheci em “Maria Full of Grace”, no começo da carreira, faz um trabalho interessante e dá um apoio bem-vindo.
Em 16 May 2024