Autor: Filipe Manuel Neto
**Ainda que tenha falhas evidentes, merece ser revisitado e apreciado pelo que é.**
Este filme é interessante sobre vários pontos de vista. Um deles é o facto de falar de uma página pouco recordada do passado colonial: a rebelião senussi, na Líbia, durou décadas e marcou uma geração de líbios, ao passo que, para os europeus, foi uma situação dramática que a devastação da Segunda Guerra Mundial atirou para as notas de rodapé dos livros de história.
Primeiro, um pouco de história: a Itália não tinha colónias até ao começo do século XX e foi um dos países europeus a avançar para a colonização africana mais tarde. Em 1911, após uma curta guerra com os otomanos, conquistaram o litoral da Líbia. O avançar das décadas permitiu que os italianos, por acordos sucessivos com outras potências coloniais, adquirissem mais territórios na região. Porém, a mudança de administração desagradou muito aos berberes líbios, liderados pela tribo senussi. Começou assim a resistência líbia à colonização italiana, e surgia assim o líder Omar Al Mukhtar como caudilho da força de resistência. Ao assumir o poder, em 1922, Benito Mussolini apostou na resolução deste conflito, já com onze anos de duração, usando todos os meios e toda a brutalidade de que podia dispor, caso esta fosse necessária.
O filme assume claramente o lado dos rebeldes e não se coíbe de mostrar toda a brutalidade e a crueza das tropas italianas e dos seus generais, particularmente o General Graziani. Sendo isso um facto histórico comprovado, fico com dúvidas quando leio alguns críticos, os quais apontam a parcialidade do relato do filme ao facto de a produção ter sido financiada pelo presidente líbio Muammar Al- Gaddafi, ditador que abriu os cofres do seu país para financiar mais do que uma produção cinematográfica ocidental. Mas, de facto, não deixa de ser um facto irónico…
O filme não é notável, e em certos momentos parece-se com uma cópia pobre de *Lawrence da Arábia*. Mesmo assim, também não é um mau filme e merecia, seguramente, ter tido mais sorte na bilheteira… eu garantidamente já vi filmes piores que se desembaraçaram bastante melhor na difícil tarefa de convencer o público a soltar algumas notas e entrar no teatro. Moustapha Akkad, o director, revela ter bastante competência para lidar com a produção milionária que tem em mãos, e que conta com centenas de pessoas, meios e dinheiro. Mesmo assim, o roteiro parece grosseiro, alguns diálogos não funcionam, e a edição, e montagem, não foram felizes. Para tornar tudo ainda mais difícil, o filme é muito longo e tem um ritmo bastante desigual e um final anti-climático e excessivamente lento.
O elenco é composto por vários nomes sonantes da indústria da época, com Anthony Quinn e Oliver Reed a assegurarem as personagens principais. Ambos são excelentes actores e estão em grande forma aqui, sendo a sua performance um dos elementos mais redentores e salvíficos do filme. Quinn dá-nos uma interpretação digna, contida, cavalheiresca e quase romântica do herói rebelde, ao passo que Reed dificilmente poderia ser mais tenebroso, frio e pragmático. Irene Papas, outra actriz muito competente, faz um papel menor, mas cheio de dramatismo, e Rod Steiger foi bastante bom na tarefa de dar vida ao Duce. O elenco conta ainda com trabalhos bem entregues de actores como Raf Vallone, Sky du Mont, Stefano Patrizi e outros.
Tecnicamente, é um filme aonde se destaca o esforço, muito vincado, para ser historicamente rigoroso e conferir credibilidade a cada cena, vestimenta ou adereço. A escolha criteriosa dos locais de filmagem ajudou bastante e dá beleza visual ao filme. Infelizmente, a cinematografia não correspondeu ao esforço: as cores lavadas e baixo contraste tiram-lhe impacto e beleza. Os efeitos visuais e sonoros são discretos, mas funcionam eficazmente e a banda sonora cumpre bem o seu papel.
Em 28 Mar 2021