Autor: Filipe Manuel Neto
**Um bom filme de terror leve, em que o desempenho do elenco é fundamental.**
Neste filme, uma dedicada assistente social que trabalha na protecção de menores vai deparar-se com um caso que, inicialmente, aparenta ser de violência e maus tractos domésticos. Ela não tem a certeza do que realmente se passa naquela família, mas o instinto e a experiência dizem-lhe que há algo de muito errado naqueles pais. E as suspeitas confirmam-se quando, alertada pela menina, ela encontra os pais prontos a matá-la no forno. Meses depois, ela obtém para si a guarda provisória da menina, mas apenas algumas semanas de convivência serão o bastante para ela começar a entender que aquela menina pode não ser tão inocente quanto aparenta, e que algo de verdadeiramente sinistro se passa com ela.
Filmes de terror em que as crianças são o elemento central da trama não são uma novidade. Tivemos clássicos como *Cidade dos Malditos*, *O Génio do Mal* e toda a franquia *Os Filhos da Terra*, sem falar nos filmes mais recentes como *A Órfã*. Porém, não deixam de ser deliciosos e apelativos, quando são realmente bem feitos. O filme tem uma história interessante, que se desenrola a bom ritmo, sem reviravoltas, subterfúgios ou estratagemas para amplificar o ‘suspense’, e tudo padece de um certo grau de previsibilidade. Todavia, o filme beneficia da boa construção das personagens, especialmente a protagonista, uma assistente social que cedo nos conquista com a sua dedicação e boas intenções, e nos prende a atenção até ao fim.
De facto, as performances excelentes de Renée Zellweger e da jovem Jodelle Ferland são ponto essencial da qualidade e da força do produto final. Zellweger já nos mostrara, em diversos trabalhos anteriores, ser uma actriz de grande talento e versatilidade, mas ela consegue levar o filme às costas aqui, enquanto Ferland foi capaz de ultrapassar a sua inexperiência e grande juventude para nos brindar com um trabalho colossal para uma actriz infantil, em que ela chega até a parecer uma adulta de tão ameaçadora e calculista que consegue ser. O filme conta ainda com o trabalho de Ian McShane e Bradley Cooper, apostas seguras nas personagens de apoio.
O filme não é particularmente notável no que diz respeito aos valores de produção e questões técnicas. A cinematografia é padrão, mas funciona bastante bem e é eficaz, adequando-se bem e ajudando a construir a tensão leve sentida durante o filme. Algumas cenas em particular (como a cena no carro a afundar-se ou o incêndio) foram brilhantemente filmadas, mas falta uma maior sensação de perigo. Os cenários e figurinos são tudo o que poderíamos esperar, sem surpresas ou problemas de maior. A edição e a banda sonora cumprem o seu trabalho discretamente.
Em 03 May 2021