Autor: Filipe Manuel Neto
**Grande demais, longo demais, feito de maneira preguiçosa, com orçamento a mais e um ego excessivo.**
Apanhei este filme na TV durante a semana passada e resolvi-me a vê-lo. Não sabia muito bem o que esperar, mas fiquei razoavelmente agradado com o que vi. Não é excelente, e há certamente muitas opções discutíveis, mas penso que o filme é bom o suficiente para justificar a experiência, pelo menos por uma vez.
Acho que não vale realmente a pena falar da trama: o que este filme faz é essencialmente verter para a tela, com algumas adaptações e omissões, a história escrita por Júlio Verne. Dirigido por Michael Anderson e John Farrow, o filme é um trabalho gigantesco e muito elaborado, feito para surpreender e maravilhar o público com cenários muito bem feitos, locais de filmagem maravilhosamente cinemáticos e bem seleccionados, figurinos caros e elaborados e uma cinematografia colorida e elegantemente filmada. Nota-se que houve um investimento financeiro muito considerável e que o estúdio apostou verdadeiramente no projecto. E o resultado de tudo isso foi um sucesso de bilheteira considerável, e ainda inúmeros prémios: na cerimónia dos Óscares de 1957, o filme foi nomeado a oito estatuetas e arrecadou cinco: Melhor Argumento Adaptado, Melhor Edição, Melhor Banda Sonora, Melhor Cinematografia e Melhor Filme. Isto é, num dos exemplos mais flagrantes de sobrevalorização gritante de um filme nos Óscares, superou, em nomeações e em prémios, “The King and I” e “Ten Commandments”, que eu considero como os dois melhores e mais memoráveis filmes daquele ano!
Não estou com isto a querer dizer que este filme não é bom, apenas a dizer que não era o filme que mais merecia todos aqueles Óscares, e particularmente o de Melhor Filme. De facto, está cheio de problemas, a começar pelo ritmo sonolento que assume durante boa parte da acção. Se o filme tivesse sido montado como devia, teria certamente menos vinte minutos de duração, pois há várias cenas que podiam ser perfeitamente encurtadas ou até mesmo dispensadas na sua integralidade. Por exemplo, nós passamos cinco minutos a ver dançarinos de flamengo! As duas personagens centrais – Fogg e Passepartout, são as mais desenvolvidas do filme, no entanto, ainda há muito que poderia ter sido feito para melhorar o material dado aos actores. E podemos igualmente questionar a quantidade de "cameos" de que o filme está repleto, e que não servem para nada nem têm qualquer impacto: eles servem apenas para o público dizer “olha, o Sinatra apareceu ali!” A maioria dos actores que aparece em cameo não tem mais para fazer além de aparecer e dizer uma palavra ou duas, o que só se justifica se tiverem sido regiamente pagos para o fazer, e provavelmente foi esse o caso!
Em geral, gostei do trabalho de Cantinflas, o actor que, diria eu, se destaca mais ao longo deste filme. Ele é um actor cómico que fez larga fama nos países latinos e também aqui, em Portugal, onde os filmes dele, dobrados para a nossa língua, faziam furor nesta época. Este é, provavelmente, o único filme onde ele foi reconhecido nos EUA, o que nos mostra bem o desinteresse dos norte-americanos por tudo o que não seja feito no seu país. E que diz isto de Cantinflas diz exactamente o mesmo de Fernandel. Também gostei de ver John Mills, Buster Keaton, Peter Lorre e o matador de touros Luís Miguel Dominguín, ainda que todos apareçam brevemente e sem consequências. David Niven faz tudo o que pode com o mau material que lhe foi dado, e isso é dizer muito de um actor com tamanha qualidade. Shirley MacLaine é ineficaz e nunca se parece encaixar na personagem, nem no filme.
Em 29 Jun 2025