Autor: Filipe Manuel Neto
**Castigat ridengo mores.**
Mel Brooks é um dos grandes pensadores e inovadores da comédia filmada no século XX e é verdadeiramente incrível pensar que este foi o primeiro filme que dirigiu, e uma das suas primeiras obras cinematográficas onde colaborou. O filme é praticamente perfeito e tem material para fazer rir os mais diversos tipos de público. Claro, é um filme antigo e a sua notoriedade diminuiu muito nos últimos anos, mas vale a pena revisitá-lo e não deixar esquecer um filme com tantos méritos. Nomeado para dois Óscares na cerimónia de 1969, logrou trazer para casa a estatueta para Melhor Argumento Original.
E de facto, é um roteiro digno de ser premiado: a história é simples e funciona com uma eficácia deliciosa, de maneira extraordinariamente leve. A trama começa com a chegada de um contabilista indicado pela banca para rever as contas de um produtor da Broadway que já viveu dias melhores: apesar dos sucessos do passado, ele limita-se agora a seduzir idosas abastadas, no esforço de as separar do dinheiro à custa da vã promessa dos lucros da sua “próxima produção”. À custa disso, ele assegurou que essa produção, a existir, não lhe renderá um centavo e, mesmo que seja um sucesso, levá-lo-á para a prisão por fraude. Assim, de conluio com o contabilista, idealiza um plano: levar à cena uma peça de teatro tão assombrosamente ignóbil que seja um fracasso garantido na primeira noite em palco! Assim, eles poderão embolsar o dinheiro restante e declarar-se falidos. E que tema seria melhor para garantir a pateada que uma ode ao Nazismo?
O filme é impróprio para pessoas sem sentido de humor ou que sejam mesmo incapazes de apreciar o sarcasmo e compreender uma sátira: ainda há muitas pessoas que entendem as coisas de maneira literal e ficariam assombradas com as cenas da peça em si, como as próprias pessoas no teatro ficaram. É o único problema do humor satírico. No entanto, se fosse necessário provar que este é um filme profundamente antinazi, bastaria relembrar a origem judaica polaca de Gene Wilder e o judaísmo declarado do director Brooks, que se tem dedicado, ao longo da vida, a uma vingança pessoal em que ridiculariza os Nazis por todas as formas que encontra. Acho justo e apropriado, afinal “Castigat ridengo mores”.
A nível técnico, o filme é soberbo: os valores de produção são excelentes e o filme parece mais caro e elaborado do que provavelmente foi (eu não sei os valores de orçamento nem o valor arrecadado em bilheteira). A fotografia é um pouco datada no tratamento da luz e da cor, mas o trabalho de filmagem e de edição é muito regular. As cenas em palco são as melhores e mais icónicas do filme, e a forma como o público reage ao que vai vendo tira as maiores gargalhadas a quem vê o filme pela primeira vez.
O elenco é liderado por dois nomes relevantes do cinema, e a sua presença não pode ser menosprezada. Zero Mostel é um nome que as gerações mais novas ignoram, e que parece um pouco esquecido, mas era um actor cómico muito sólido e uma aposta sólida por parte de Brooks. Carismático, ele assegura um protagonismo eficiente e faz com que gostemos de uma personagem que, basicamente, é um burlão desprezível. Gene Wilder, que vivia nesta altura a fase áurea da sua carreira, encaixou-se perfeitamente aqui, dando-nos uma personagem profundamente simpática, ingénua ao ponto da infantilidade, que combina perfeitamente com a habilidade viperina e manhosa da personagem de Mostel. Além dos actores principais, temos ainda Dick Shawn e Christopher Hewett, dois actores a viverem os maiores papéis das suas vidas, acho eu. Kenneth Mars merece um louvor especial por um trabalho soberbo, onde mistura fanatismo, humor e loucura numa personagem que se consegue tornar agradável por mais detestável que seja.
Em 26 Dec 2024