Autor: Filipe Manuel Neto
**Uma comédia romântica simples, eficaz e memorável em quem ninguém acreditava num primeiro momento.**
Este é um daqueles filmes que todo o apreciador de cinema vê, pelo menos, uma vez na vida. Trata-se de um dos maiores sucessos de bilheteira da década de 30, e um dos filmes vencedores em quem ninguém acreditava – nem os actores, nem o próprio estúdio! É, de facto, uma história curiosíssima, com uma doce ironia. Nomeado para cinco Óscares – Melhor Filme, Melhor Actor, Melhor Actriz, Melhor Argumento e Melhor Director – foi capaz de os levar a todos, um feito raro em Hollywood que aconteceu, aqui, pela primeira vez. E tão inesperado foi que Claudette Colbert nem sequer estava presente, tiveram que a ir chamar a uma estação de comboios!
O filme é uma comédia romântica simples e eficaz em que a filha mimada de um ricaço foge para obrigar o pai dela a aceitar o seu casamento com um aviador com má fama, que ninguém parece verdadeiramente respeitar. Ela resolve apanhar um autocarro e perfazer a longa viagem até Nova Iorque por estrada, acabando por travar conhecimento com um jornalista freelancer fracassado que, reconhecendo-a rapidamente, se apercebe de que tem em mãos o furo jornalístico da vida dele. O contacto leva-os ao amor em meio a uma série de peripécias engraçadas em que dificilmente concordam um com o outro.
Sinceramente, o filme fez-me lembrar um pouco a peça “A Megera Domada”, de William Shakespeare, por causa da dinâmica do casal. Há clichés, há romance cor-de-rosa, não é um filme que seja crível aos olhos do público (afinal, onde poderia acontecer algo sequer parecido, na vida real?), mas a comédia compensa muito bem esta romantização e certos excessos de doçura. Frank Capra, um dos maiores directores do seu tempo, aproveita para fazer críticas subtis ao materialismo das classes abastadas, que resolvem os problemas com um maço de notas, e louvar a honradez do homem comum que, dignamente, recusa aceitar esse tratamento. O director deixa-nos um trabalho impecável, com um excelente trabalho de filmagem e uma cinematografia bem trabalhada, boa direcção dos actores e dos técnicos e excelente concepção de cenários e de figurinos. A banda sonora e os efeitos de som funcionam bem, o que é notável se considerarmos que o filme foi feito poucos anos após a introdução destas tecnologias, no final da década de 20.
Clark Gable já era um galã razoavelmente consagrado quando surgiu a oportunidade de fazer este filme. Ele conseguira isso com “Red Dust”, dois anos antes, em boa parte graças à inspiração de Louis B. Mayer, que viu no sarcástico actor o potencial para se tornar um arrasa-corações. O filme consagrou-o como actor dramático e ainda hoje é recordado por legiões de admiradores. A muito menos recordada Claudette Colbert está maravilhosa ao lado dele, conseguindo harmonizar romance e humor na medida certa e deixando-nos o grande filme da sua carreira artística, ouso dizer. Uma nota positiva ainda para Walter Connolly, que também faz um trabalho satisfatório neste filme.
Em 24 Mar 2025