Autor: Filipe Manuel Neto
**Uma das melhores e mais elegantes comédias que vi em tempos recentes. Bravo! Bravíssimo!**
Não há adjectivos suficientes para alguém com Florence Foster Jenkins. Por um lado, é belo ver alguém que, obstinadamente, persegue o sonho de uma vida. Por outro, é bastante evidente a incapacidade técnica desta bem-intencionada e simpática senhora para a tarefa a que tanto se quis dedicar. Ela não sabia cantar, não se importava rigorosamente com isso, e não admitia que ninguém a procurasse contrariar. Como ela mesma disse antes de morrer, ninguém pode dizer que ela não cantou. Não sei exactamente se o filme foi fidedigno à verdadeira Foster Jenkins… não conheço tão bem assim a sua vida e a figura histórica. Todavia, quero acreditar que sim.
O filme é verdadeiramente engraçado e o roteiro é delicioso. Este filme tinha tudo para não ser muito interessante, mas revelou-se uma pequena preciosidade e uma das comédias familiares mais engraçadas que vi nos últimos tempos. Curiosamente, nunca aborda uma questão, que é a saúde débil de Florence, muito afectada pela sífilis que contraiu do seu marido, de quem cedo se separou, e que nunca tratou devidamente. Os diálogos foram muito bem escritos e merecem ser ouvidos com atenção.
Mas o que torna este filme realmente precioso é a extraordinária performance de Merryl Streep. Não tenho dúvidas que deve ter sido difícil para a actriz, dona de boas qualidades vocais, cantar tão mal, mas ela empenha-se profundamente e dá a Florence Foster Jenkins uma doçura pouco usual e extremamente agradável. De facto, Streep parece até divertir-se com este trabalho e a sua personagem. Hugh Grant, de volta aos filmes após uma paragem na carreira, também está em boa forma e faz um bom trabalho. Uma nota ainda para o bom trabalho de apoio de Simon Helberg, Rebecca Ferguson e David Haig.
Tecnicamente, o filme aposta muito na recriação, adequada e historicamente precisa, de todo o período histórico em causa. Gostei muito dos automóveis, dos cenários e dos figurinos, muito particularmente os que foram idealizados para Streep. A cinematografia é boa, mas discreta, e os efeitos cumprem o seu papel sem nos distrair do humor, espirituoso e elegante. Alexandre Desplat assina uma banda sonora bastante competente, mas o filme não funcionaria bem sem as impagáveis e hilariantes performances de Streep e Helberg, em canto e piano, recriando até onde foi possível algumas das gravações ainda existentes da verdadeira “diva do grito”, a qual pode ser ouvida nos créditos finais, onde foram usadas algumas gravações autênticas.
Em 25 Oct 2022