Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme carregado de simbolismo e que conta uma história interessante.**
Há filmes que, pela história que contam e pelo momento em que são lançados, acabam por ser quase simbólicos da mudança dos tempos. Eu penso que isso aconteceu com este filme, que é também um dos mais interessantes da carreira de Joan Crawford.
A história deste filme gira em torno de Mildred Pierce, uma mulher casada que vai sentir a necessidade de trabalhar para sustentar a si mesma. Começando como simples empregada, irá crescer e abrir o primeiro de uma série de restaurantes que vão fazer dela uma mulher rica. Mas o que mais lhe interessa é a felicidade da filha, Veda, uma jovem mimada e problemática.
O filme, lançado publicamente em 1945, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, não podia ter sido mais certeiro: com a guerra, muitas mulheres tiveram necessidade de trabalhar, não só pela ausência dos maridos no Exército mas também devido à exigência do esforço de guerra. A guerra foi a prova que as mulheres precisavam para perceberem que podiam ter uma vida profissional e uma carreira fora de casa, e que o ambiente doméstico não era forçosamente a única ocupação da mulher. O filme marca essa mudança de mentalidade, o momento em que a mulher norte-americana compreende que tem espaço para ter uma profissão e crescer sem depender do marido. Claro, o filme é muito mais do que isso porque a vida de Mildred Pierce não é fácil e transpira liberdade e independência, incluindo liberdade sexual, no sentido que a personagem pode envolver-se com quem quer sem ter de prestar contas a ninguém. É ainda um filme sobre preconceitos, sobre a forma como alguns se sentem superiores a alguém que, ainda que seja rico, enriqueceu recentemente ou por via do trabalho.
O elenco é liderado por Joan Crawford, que esteve incrível no papel dela e mereceu, com toda a justiça, o Óscar de Melhor Actriz, naquele longínquo ano de 1946. Porém, concordo com as opiniões de alguns críticos que disseram que a personagem carece de verosimilhança. Alguns apontaram a forma excessivamente abnegada com que Mildred Pierce perdoa tudo e faz tudo para contentar a sua insensível filha. Pessoalmente, eu não vou por aí. Uma mãe que ame o seu filho é capaz de tudo por ele, até de se prejudicar a si mesma. Isso é algo crível para mim. O que não me parece crível é ver uma mãe que tem uma filha tão rude e mal-educada optar por, simplesmente, ignorar isso e não dar o necessário correctivo. A forma como Bert Pierce, o primeiro marido de Mildred (interpretado por Bruce Bennett) também parece preso à esposa e incapaz de ter uma vida normal e outro relacionamento também me parece inacreditável.
Tecnicamente, é um melodrama regular, com toques de inspiração noir bastante evidentes na cinematografia, na iluminação e no uso de alto contraste e bastantes cenas nocturnas ou em média luz. Os cenários são muito bons e foram muito bem pensados. Os figurinos combinam e ajudam a criar um ambiente geral agradável.
Em 26 Aug 2020