Autor: Filipe Manuel Neto
**Um filme que recria bem o ‘modus vivendi’ dos subúrbios dos anos 50, mas que não consegue dar-nos uma história com tensão e ‘suspense’ a que possamos aderir.**
Qualquer filme dos Irmãos Cohen é sempre um filme que promete não ser igual a nenhum outro. O estilo deles é bastante único e não agrada a todos. E desta vez eles trazem-nos um filme que é inteiramente acerca da importância das aparências, da podridão que elas encobrem, e de uma certa autodestruição latente por baixo de uma aparência impecável. É um filme que nos tenta ensinar que nada é o que parece, nada é perfeito, não existem paraísos na Terra, e tudo o que pareça muito perfeito tem, sempre, algo decadente ou estragado por detrás. Mais um filme que promete incomodar quem o vê… um incómodo que nos ajuda a entender porque o filme foi tão fraco nas bilheteiras.
É essa a lição de Suburbicon, uma comunidade aparentemente perfeita e muito amigável, toda ela de brancos caucasianos, com casas, carros e relvados impecáveis, que vai começar a viver dias de enorme turbulência e motim quando uma família de negros se resolve mudar para lá. A família em questão parece tão impecável quanto eles, e tão endinheirada quanto qualquer um dos seus vizinhos… mas são negros e isso basta para serem indesejáveis, aos olhos dos vizinhos. Ao mesmo tempo que isto acontece, uma daquelas famílias impecáveis começa a implodir após uma invasão de domicílio resultar num homicídio e, dias depois, surgir um inspector que pensa que tudo não passa de um crime cometido para deitar mão ao dinheiro do seguro de vida.
Como vemos, o roteiro não é difícil de descrever sucintamente, apesar de juntar duas tramas que, sozinhas, podiam dar um filme solo. Ambientado nos anos 50, o filme mostra-nos a forma como o bairro suburbano nasceu, com uma grande urbanização potenciada pela crescente prosperidade e capacidade de compra de uma classe média em franco crescimento. Todavia, ao longo do filme, a sensação de artificialidade e falsidade que envolve o bairro (e aquela família ideal em particular) vai-se acentuando, na mesma proporção das suspeitas das autoridades e da hostilidade para com a família negra. Infelizmente, o filme não consegue que essa tensão passe para o público, e a atmosfera nunca chega a ser tão densa e tão perturbadora como deveria.
George Clooney pode não fazer parte do elenco, mas assegura uma direcção segura e ciente do que quer… embora não pareça saber exactamente como chegar lá! Ele esmera-se nos aspectos mais técnicos e artísticos, na concepção dos cenários, na recriação da época, mas não consegue moldar o ambiente de modo que a tensão e o ‘suspense’ se vão adensando a caminho do clímax, nem que o elenco corresponda com o mesmo esforço e empenho. A prova é Matt Damon, que dá vida ao protagonista de uma forma morna, semelhante ao que fez em _O Bom Pastor_ (a semelhança entre as personagens, do ponto de vista visual e comportamental, é enorme e não é agradável). Julianne Moore acaba por ser a melhor actriz presente, com uma boa interpretação onde combina um espírito calculista e meticuloso com uma aparência de dona de casa ideal.
Tecnicamente, é um filme bem executado a vários níveis: a cinematografia é colorida, vívida e o trabalho de filmagem foi bem conseguido. Os cenários conseguem ressuscitar a aparência idílica do subúrbio de classe média dos anos 50, com os cenários a apostarem em mobiliário da época e cores entre o verde e o rosa. Os automóveis são parte importante do filme, e todos eles são magníficos. Os figurinos, muito particularmente o de Moore, também são excelentes e trazem de volta a moda feminina daquele período. Alexander Desplat assina a banda sonora e faz um trabalho bastante bem executado.
Em 23 Jun 2022