Autor: Filipe Manuel Neto
**Uma primeira adaptação da obra maior de Jane Austen, que está repleta de problemas, mas é competente, pragmática e muito elegante. Pensado como uma comédia, foi pensado da forma errada.**
Neste momento, acredito que mesmo aqueles que nunca leram um romance de Jane Austen de certeza concordarão que a escritora é, simplesmente, uma das mais ilustres do panteão clássico da língua inglesa. “Orgulho e Preconceito” é um romance que já foi adaptado ao cinema e para a TV por diversas vezes, e cada produção teve os seus prós e contras. Não se pode ignorar esta produção, contudo, porque ela foi realmente a primeira a transportar o romance do papel para o celulóide. O seu impacto, na época, foi enorme, foi um grande sucesso e ajudou até a tornar o livro original mais conhecido e popular fora de Inglaterra.
Não vou perder o meu tempo a explicar a trama, que é sobejamente conhecida de todos os que já viram, pelo menos, uma das adaptações mais recentes do livro. O que posso dizer é que este filme, com a sua curta duração, acaba por não conseguir fazer justiça ao material original, que é largamente escamoteado. Não podia ser de outro modo, de resto, mas o director Robert Z. Leonard cortou até passagens bastante importantes para a compreensão geral da trama!
Outro problema deste filme é a forma como a produção simplesmente não deu importância à escolha de actores que encaixassem nas personagens. Preocupados em chamar público e fazer render o filme, os produtores escolheram actores famosos, reconhecíveis, mesmo que sejam claramente mais velhos do que as personagens que encarnaram. “Apostas seguras”, como por vezes eu costumo chamar-lhes, porque aliavam a popularidade a um talento assegurado: não é de admirar que, cada um a seu modo, tenham conseguido dar-nos boas actuações. Gostei, muito particularmente, de Greer Garson, que sinto ter feito um esforço genuíno para parecer jovem e mais rebelde, como pedia a personagem dela. Também Edna May Oliver merece um louvor pela forma como deu vida à imponente e arrogante Lady Catherine. Maureen O’Sullivan, Edmund Gwenn e Edward Ashley fazem igualmente um bom trabalho, e apesar de não gostar dos modos excessivamente pomposos e arrogantes, Lawrence Olivier foi competente como Darcy.
Tecnicamente, o filme não apresenta grandes falhas ou deméritos dignos de menção. Filmado a preto-e-branco quando originalmente se planeava utilizar a cor (por ter alegadamente faltado em mercado o celulóide necessário, devido à produção de “E Tudo o Vento Levou”), o filme tem uma cinematografia muito boa e foi elegantemente filmado. A banda sonora não é má, estando dentro daquilo que esperamos encontrar num filme dos inícios da década de Quarenta. Todavia, não posso deixar de criticar, pela negativa, a opção de situar temporalmente a acção trinta anos depois do período em que tudo se passa no livro, ainda que entenda a conveniência, para toda a produção, de poder reciclar parte dos figurinos usados em “E Tudo o Vento Levou”.
Em 26 Feb 2023