Autor: Filipe Manuel Neto
**Um excelente filme de "gangsters" com um grandioso leque de actores**
Este filme é baseado na vida real do mafioso Frank Lucas, que se impôs no comércio de drogas em Nova Iorque durante os anos 60 e 70 antes de ser apanhado pelas autoridades e forçado a colaborar com elas, em troca de uma considerável redução da sua pena. O roteiro mostra como Lucas, inicialmente um homem de mão do mafioso Bumpy Johnson, consegue aproveitar as suas relações no Extremo Oriente e o contexto da Guerra do Vietname para importar, directamente e dispensando qualquer intermediário, heroína em estado puro para os Estados Unidos, que vai vendendo a um preço mais baixo que os concorrentes. O filme mostra, também, os esforços de um polícia honesto, Richie Roberts, para combater o crime organizado e, em simultâneo, se manter à margem dos esquemas de corrupção em que quase toda a polícia nova-iorquina se via, então, envolvida.
O filme é realmente bom, para quem, como eu, gostar de filmes envolvendo mafiosos, polícia e temas desse género. Não é um clássico, mas funciona maravilhosamente. Começa devagar, com a morte de Bumpy e a hipocrisia da sociedade, que vai acorrendo em massa ao funeral apesar de ser um criminoso e um assassino. O ritmo é um pouco lento e a sua longa duração (quase três horas, na versão estendida, que foi a que eu vi) pode intimidar alguns espectadores, mas a história desenvolve-se bem, envolvendo gradualmente o público. Vale bem a pena dedicar algum tempo extra a este filme e vê-lo como ele merece ser visto.
Ridley Scott é um director que dispensa apresentações e que nos mostrou anteriormente que é um homem de talento e que sabe tirar o melhor daquilo que lhe é dado para trabalhar. Por isso, não me surpreende que o director, aqui, mostre saber lidar com os actores. O elenco está cheio de nomes nobres da indústria, começando logo por Denzel Washington, que nos brinda com um trabalho grandioso e empenhado. Não sou capaz de dizer que é o melhor deste actor, pois ele é muito regular no seu trabalho e oferece-nos, quase sempre, boas interpretações, mas é mesmo bom vê-lo aqui em mais um grande trabalho. Russell Crowe também brilha neste filme, dando à sua personagem um ar de rebeldia, impoluta e irredutível. A lista de nomes notáveis nos papéis secundários é extensa, mas posso dizer que gostei muito do trabalho de Josh Brolin, como um dos polícias corruptos e Chiwetel Ejiofor e T.I. como dois mafiosos. E apesar de o filme ser muito masculino, tanto no tema quanto no elenco, gostaria de destacar as boas performances de Ruby Dee e Lymari Nadal, em personagens femininas muito interessantes.
Tecnicamente, é um filme contido, que privilegia o realismo em detrimento do espectáculo. Não há muita acção e a que existe foi muito bem feita, sem espectacularidade ou ruído excessivo. A cinematografia é muito agradável, com um bom contraste e um aproveitamento excelente da luz. Visualmente, lembra um pouco os grandes épicos de "gangsters", e não tenho grandes dúvidas de que Scott foi influenciado pelo estilo de Scorsese. Os cenários e figurinos são excelentes, com notas muito interessantes que nos remetem para o período em que tudo se passa (por exemplo, as notícias televisivas e os automóveis utilizados). Gostei especialmente dos figurinos elegantes reservados a Washington. A banda sonora, discretamente, contribui muito para o ambiente.
Em 09 May 2021