Autor: Filipe Manuel Neto
**Tem qualidade, tem vários pontos interessantes a observar, mas tem um humor estúpido que se perde completamente pela mensagem que transmite acerca das drogas e do sexo.**
Vi este filme na televisão, por mero acaso, agora mesmo, e confesso que não gostei. É de facto um filme leve, tem algumas boas cenas e momentos, até tem vários pontos de qualidade como irei discriminar, mas se pensarmos bem, o seu estilo de humor, baseado quase inteiramente em piadas sobre sexo, uso de todo o tipo de drogas e afins, estraga tudo. Eu sei que há pessoas que gostam destas comédias de riso fácil, mas eu estou longe de ser uma delas.
Kal Penn e John Cho dão vida às personagens principais, que já conhecem muito bem porque é o terceiro filme desta franquia (que não vi e, depois disto, não irei ver). O filme apresenta-nos, ainda, Danny Trejo. Paula Garcés, Richard Riehle e Danneel Ackles, para citar apenas alguns dos actores secundários que participam deste filme. Os actores vão fazendo o que podem com o material em mãos, acho que são um dos valores redentores deste filme, mas não há muito o que possam fazer quando o material é intencionalmente mau e ainda dá dinheiro ao estúdio.
A nível técnico, o que eu mais gostei foram as animações em "stop-motion" que aparecem numa dada situação em que os protagonistas estão pedrados. Foi um recurso de qualidade, e usá-lo foi criativo e original, mesmo considerando que o filme não vale o nosso tempo e dinheiro. Os cenários também são bons, especialmente a casa de Cho, sobrecarregada de decorações e de luzinhas de natal ao ponto de ser pirosa, evidenciando assim a falta de gosto do proprietário, um drogado de ascendência coreana que simplesmente subiu na vida. A banda sonora também merece nota positiva, quanto mais não seja pelo trabalho com as canções clássicas da quadra.
Como podem ver, o filme tinha potencial para ser muito interessante e só se perdeu pelo seu humor obsceno, pelas piadas vis, absolutamente desprezíveis, e pela total obsessão do filme com sexo e drogas. Qual era o público-alvo desta chachada? Drogados e maníacos sexuais? Um bando de adolescentes sem qualquer cérebro para pensar? Sejamos francos: por um lado, o filme transmite a ideia de que Harold e Kumar (os charrados de serviço, isto é, as personagens principais) são totalmente irresponsáveis, imaturas e indignas de serem tidas em consideração para um assunto sério. Isso é uma mensagem positiva porque realmente os drogados e tarados sexuais são desprezíveis, irresponsáveis, indignos de serem considerados maduros ou dignos de confiança. E destaco: marijuana, seja qual for o nome que lhe queiram dar, é droga e o seu consumo vicia e leva à criminalidade e à morte. Acabou. É um vício como qualquer outro. Contudo, por outro lado, e apesar de o filme nos passar esta mensagem positiva, faz também a apologia do consumo! O que vemos? Pessoas que se divertem e riem quando estão drogadas, mesmo que façam coisas estúpidas! Mas a droga é como o álcool e todos os outros vícios: naquele momento parece boa ideia, mas em troca de momentos, vendemos a nossa alma.
Em 02 Jun 2023