Autor: Filipe Manuel Neto
**Muita acção, muito CGI, mas sem um roteiro decente.**
Tenho sempre medo de sequelas. E não sou o único, há até vários actores que não gostam delas. Este filme explica o porquê: são quase sempre piores que o filme anterior, que, neste caso, não era particularmente bom. E apesar de eu perceber que o título é uma referência a um filme antigo (isto é, esta é uma sequela de um remake), continua a ser uma má escolha para um título, mas essa é a crítica menos relevante aqui. Se o primeiro filme era insípido e cheio de falhas de roteiro entre uma avalanche de CGI, pelo menos tinha a virtude de ter uma história minimamente relacionada à mitologia grega. Este filme perdeu essa qualidade, preferindo criar algo novo que desse continuidade à história anterior e reciclasse as personagens. É uma escolha legítima... mas fracassou.
O enredo ocorre dez anos após os eventos de "Confronto de Titãs". Perseu vive uma vida mortal com o seu filho quando é chamado pelo pai, Zeus, num problema com a instabilidade das paredes do Tártaro. Logo depois, esse problema desaparece, ninguém fala mais disso e os deuses voltam-se uns contra os outros numa guerra interna, onde Perseu vai participar para evitar o regresso de Cronos, um deus primordial, e impedir o fim do mundo.
Achei este enredo altamente previsível, um desastre completado com diálogos insípidos e sem inspiração, clichés de épicos de acção (o uso da câmara lenta em cenas de luta, por exemplo) e um trabalho de edição e pós-produção tão amador que parece feito por estagiários! É perfeitamente evidente, ao longo do filme, uma brutal diferença de ritmo, com momentos em que tudo acontece rapidamente e outros onde a acção se arrasta como o mel no Verão. Se não podemos culpar os editores por essas diferenças, temos de apontar o dedo ao desajeitado director Jonathan Liebesman, que talvez tivesse feito melhor se dedicasse o seu tempo a filmar filmes caseiros com cachorrinhos. Destaco, porém, que nem ele nem a equipa de argumentistas participou, tanto quanto eu pude perceber, do filme anterior.
Sobre o elenco, posso dizer que há aqui grandes actores que conseguem, com talento e dedicação, fazer com que o filme não seja uma total perda de tempo. Liam Neeson é impecável e dá-nos um bom trabalho; Ralph Fiennes esteve igualmente bem, talvez até melhor do estava que no filme anterior; Sam Worthington parece ter aprendido com os erros do primeiro filme mas ainda me pareceu estúpido e convencido; Bill Nighy foi bom e dá-nos alguns momentos de leveza e comédia situacional; Alexa Davalos deu lugar a Rosamund Pike, que interpretou uma Andrómeda ágil e forte, o que eu realmente gostei de ver porque ela é uma boa actriz que só tinha feito personagens sem emoção.
O filme reproduziu a fórmula "se o roteiro não funcionar, afoga-se em CGI e acção para colar". Quando é que os cineastas perceberão que o CGI se tornou comum r que não é possível ter um bom filme só com os recursos visuais e a acção? Precisamos de uma boa história atrás disso, e este filme simplesmente não a tem. Eu poderia falar sobre o irrealismo das cenas de luta, que foram mais coreografadas que um ballet... mas até isso perde relevância se o roteiro não tem história. É um filme que não vale a pena ver mais de uma vez, só para se ter noção do quanto é mau.
Em 17 Nov 2018