Autor: Filipe Manuel Neto
**Um marco do sci-fi que, no entanto, é bastante datado e envelheceu mal.**
Confesso que esperava mais deste filme. O seu impacto na época é inegável, e é um clássico consagrado do cinema sci-fi. Na verdade, quase que podemos dizer que faz parte do “panteão” dos filmes fundadores deste género de cinema, na medida em que foi um dos primeiros filmes sci-fi de grande orçamento e de grande impacto público.
O melhor que este filme tem para nos dar é a sua criatividade quase inesgotável. É bastante evidente que a equipa de criadores teve tempo para criar e desenvolver ideias e o estúdio resolveu permitir ampla margem de manobra aos seus especialistas. Quando isto se conjuga com um orçamento apropriado e uma aposta séria em efeitos especiais, visuais e sonoros de grande qualidade, temos o que é preciso para um filme visualmente impactante e capaz de nos seduzir.
Eu só posso imaginar como terá reagido o público da época perante este filme: a minha reacção é diferente. De facto, a nossa perspectiva tem de ser diferente: passaram já mais de sessenta anos sobre a estreia e os avanços técnicos e tecnológicos do cinema, como sabemos, habituaram-nos a outro tipo de visuais e efeitos, e assim, este filme não nos consegue surpreender e encantar da mesma forma que encantou o público no tempo em que foi feito. Isto não é um defeito do filme, é quase podemos dizer, um “defeito” do público, que neste caso concreto sou eu.
O elenco conta com alguns nomes bem conhecidos. Foi interessante ver Leslie Nielsen muito mais jovem e a fazer um tipo de papel radicalmente diferente daqueles a que estou mais acostumado a ver. Walter Pidgeon também faz um trabalho muito bom e, apesar de não gostar da personagem, reconheço o esforço e o talento de Anne Francis. E apesar de ser uma personagem e não um actor, Robbie é deliciosamente simpático.
O maior problema deste filme acaba por ser a sua idade: é um filme datado e que envelheceu bastante mal, e pode ter dificuldade em encontrar novos públicos capazes de o apreciar hoje em dia. Mas não foi por causa das questões visuais e dos efeitos que o achei tão datado. Foi pelo machismo intrínseco na trama, na concepção das personagens e no romance idiota que é colocado no filme. O filme é o espelho de uma mentalidade que, para nós, é inaceitável e retrógrada, em que a mulher é obediente e submissa a todo e qualquer desejo masculino. Consigo antever algumas amigas minhas a gritarem com a força da sua indignação se tivessem de ver este filme. Não sendo eu, nem de perto, uma pessoa muito próxima das causas feministas, isto não é um problema para mim, mas não deixa de ser um sinal do quão datado este filme é.
Em 22 Dec 2023