Autor: Pedro Quintão
“Piggy” é um retrato cru, sufocante e profundamente humano sobre o bullying, isolamento e sentimento de culpa. A realizadora Carlota Pereda transforma uma história aparentemente simples num intenso estudo de personagem, onde a fronteira entre vítima e cúmplice se torna muito ténue e nos propõe a refletir: até que ponto seríamos capazes de nos vingar de alguém que nos fez muito mal?
Os primeiros 20 minutos são os mais desconfortáveis que já vi num filme sobre bullying. A forma como a câmara se cola à protagonista, faz-nos sentir o peso da humilhação e da crueldade humana. E é isso que gosto num filme dentro deste género: uma experiência que não deixa ninguém indiferente.
Laura Galán entrega uma interpretação brilhante, fazendo que que sintamos cada momento da sua vulnerabilidade ao ponto de nos arrepiar, principalmente quando é vítima de bullying e de bodyshaming. É impossível não empatizar com ela, mesmo quando as suas decisões começam a desafiar os nossos valores morais.
A premissa central de Piggy é precisamente esse dilema moral: o que faríamos se tivéssemos a oportunidade de salvar quem nos destruiu? Essa reflexão acompanha-nos até ao fim, deixando-nos divididos entre a empatia e o desconforto pelas atitudes da personagem.
A forma como o filme humaniza várias personagens é outro dos seus grandes trunfos. Senti que até mesmo os bullies têm os seus momentos de fragilidade, o que torna o contexto emocionalmente complexo.
Ainda assim, Piggy perde parte da sua força à medida que o terror e o thriller ganham protagonismo. O tema do bullying, que inicialmente era o motor da história, vai perdendo força e acaba substituído por um enredo mais convencional, com um serial killer à solta. O terceiro ato também não tem o mesmo impacto emocional do início, tornando-se ligeiramente genérico. É uma pena, porque o drama humano era o verdadeiro terror do filme e seria uma obra de referência se envergasse totalmente por esse caminho.
Mesmo assim, é um filme forte, necessário e emocionalmente devastador, com uma protagonista inesquecível e uma mensagem que nos persegue muito depois do final. E infelizmente, acredito que muitos de nós nos vamos identificar com ela.
Em 09 Oct 2025