Autor: Filipe Manuel Neto
**Confuso e preguiçoso, tem a emoção e a tensão de um videojogo decadente.**
Tenho estado, desde há uns dias, a ver os filmes da franquia *Exterminador Implacável*, e cheguei à óbvia conclusão que a sua qualidade diminuiu drasticamente, e que qualquer comparação entre os dois filmes mais antigos e os filmes mais recentes é quase mera coincidência. Neste filme, o protagonista é o Tempo: após uma grande ofensiva, John Connor obtém acesso à máquina do tempo construída pela Skynet e envia para o passado Kyle Reese, na missão de proteger a sua mãe, Sarah. Nós já sabemos isto, isto foi o começo do filme inicial da franquia. Porém, quando chega, Reese descobre que o passado foi alterado: Sarah Connor já sabe tudo o que a espera, a chegada de Reese era aguardada e há um modelo T-800 a protegê-la. Então, eles decidem tentar destruir a Skynet antes de esta ser difundida globalmente.
O que este filme fez foi uma confusão. O paradoxo temporal criado é tão estranho, confuso e levanta tantas perguntas que chega a ser mau pensar nisso. Outros filmes e franquias também brincaram com as linhas de tempo, tal como os X-Men com o filme *Dias de um Futuro Esquecido*, mas o cuidado na escrita permitiu resultados que, aqui, não se conseguem. Após alguma leitura, apercebi-me de que a produção foi conturbada e não foi um esforço pacífico e fácil para nenhum dos envolvidos, pelo que acredito que ninguém tem saudades do filme, a começar pelo elenco, e todos respiraram de alívio quando a Paramount cancelou os dois filmes seguintes.
O roteiro é confuso e foi mal escrito, as personagens são quase todas meramente esboçadas e pouco desenvolvidas. Mesmo assim, o filme tem o mérito de tentar escapar um pouco à usual fórmula dos filmes *Exterminador*: destruição maciça, perseguições e muito metal retorcido. Há, como no passado, esforços para alguns momentos cómicos, mas são mal colocados e nunca se revelaram eficazes. A direcção, assegurada por Alan Taylor, é um esforço infeliz, dado que o director teve tudo nas mãos para fazer um trabalho decente e nunca o conseguiu. Parece até que ele se sentiu perdido e sem saber o que fazer, decidindo fazer um filme barulhento, com toneladas de acção ruidosa e espampanante em vez de um filme mais sombrio, tenso e onde a ameaça fosse verdadeiramente palpável para o público. Basicamente, deu-nos um videojogo.
O elenco é bastante fraco e parece estar a actuar por conta própria, sem uma coordenação ou direcção eficaz. Arnold Schwarzenegger regressa para mais uma vez interpretar a personagem que lhe deu notoriedade, e eu tenho de aplaudir o esforço do actor para parecer credível mesmo após tantos anos. Ele é, nitidamente, um actor empenhado e que leva a sério o seu trabalho, e eu admiro essa entrega e dedicação. Também apreciei o esforço de Emilia Clarke. Apesar de ser um esforço minado pelo péssimo material que recebeu e pela ausência virtual de direcção, ela empenhou-se tanto quanto podia e tornou Sarah Connor numa personagem mais feminina, mais elegante. Jai Courtney é irritante e a forma como actuou é aleatória. Ele parece perdido, sem saber como interpretar Reese devidamente. Jason Clarke é detestável em todos os aspectos.
É nos valores de produção e nos aspectos técnicos que assenta boa parte deste filme, que soa como uma desculpa para um blockbuster de acção barulhenta. Tal como eu disse mais acima, a sensação de perigo e de tensão nunca acontece, e tudo soa tão artificial quanto é. Os efeitos de som são muito bons e o CGI é bom, mas não é propriamente impressionante. A cinematografia é boa, e faz bom uso das paisagens e dos cenários de tela verde, mas por vezes parece sombria e com cores algo lavadas. O trabalho de maquilhagem e os figurinos são bons, mas estão dentro daquilo que era exigível e não trazem nada de surpreendente. O trabalho de pós-produção foi feito com alguma preguiça e desmazelo, e os cortes são, por vezes, súbitos e evidentes. A banda sonora é esquecível e desinteressante, quando é efectivamente utilizada.
Em 20 Mar 2021